O artista Vincent Van Gogh é, de novo, notícia: descoberta de nova e rara pintura, há pouco tempo, de sua autoria, num museu do Centro da Holanda em que retrata o moinho Le Blute-Fin, de Paris, como é foco de nova, rara e importante exposição em Londres. Através da sua correspondência, em que se baseia a Mostra, THE REAL VAN GOGH – The artist and His Letters, (O VERDADEIRO VAN GOGH – O artista e a sua correspondência), Na Royal Academy of Arts – Academia Real das Artes (RAA), o amante da Arte tem uma exposição imperdível. Este artista, que extensiva e apaixonadamente escreveu sobre a sua arte e as suas obras, 35 belas e laboriosamente ilustradas cartas, raramente exibidas em público, encontram-se acompanhada por inúmeras e famosos quadros, 65, e 30 desenhos. Cronologicamente expostos, desde os tenros anos da sua sede de artista, na terra natal de Nuenen (sul da Holanda), onde o pai, pastor Protestante, desempenhava as suas funções, e em que o pequeno Vincent “bebia” os versículos da Bíblia, o visitante, através das suas epístolas, ao aperceber-se de que a arte é a sua consumida ambição, DESCOBRE, FINALMENTE, O VERDADEIRO GÉNIO!
Na sua intensa necessidade de comunicar, nas suas missivas, Van Gogh (1853-1890) revelava o seu rico e multifacetado universo: intelectual, artístico, ético, filosófico, vasto conhecimento de arte, literatura, mas sobretudo o seu enorme amor pela natureza. Em suma – o VERDADEIRO VAN GOGH, destituído do falso mito que até aqui o envolvia! Graças ao seu progenitor, o irmão mais novo Theo (1857-1891), importante negociante de arte, que o incentivou, aconselhou e financiou, e a quem a maioria das cartas são dirigidas, bem como à irmã Willemien, e a outros amigos, Vincent encontrou a verdadeira e genial vocação, em 1880, quanto tinha apenas 27 anos de idade.
Apaixonado, fascinado pela natureza, foi ela que o arrebatou e que consagrou o seu génio. Como necessitasse de explanação, a sua carta 252, revela que: “o dever do pintor é estudar, em profundidade, a natureza. Usar a inteligência e, através das suas emoções, impregná-las no seu trabalho, a fim de torná-lo o mais compreensível possível ao apreciador”. Natureza! A ela se renderia, qual escravo voluntário, desde os primórdios da sua intensa actividade artística. Não sem algumas distrações de percurso, como os anos passados na Inglaterra, em representação da firma de obras de arte, Goupil's para onde foi transferido entre 1873-74, e a onde regressou em 1876, em que ao absorver a literatura inglesa, “beber” Shakespeare e Dickens, em Londres, adoptou o ensino em Ramsgate, e até pregou em púlpitos de Isleworth (na agora Grande Londres).
Sem estudos formais de pintura ou experiência profissional ou amadora, compensou-o tanto no aprendizado de línguas, como o Alemão, Francês e Inglês, além, claro, da língua materna, o Flamengo, embrenhando-se na arte japonesa que tanto também o viria a influenciar, bebendo as instruções dos manuais enviados pelo irmão Theo, observava os camponeses na vizinha Etten, cuja actividade e movimentos no campo procurava reproduzir na tela. Inicialmente difícil, pois reconhecia o desafio da arte por ele encetada, na carta 214, de “plena bruxaria ou pura coincidência”. Sem desvanecimentos, persistindo no simples desenho a lápis ou giz, para ele “a raíz de tudo” (carta 349); a partir do Semeador, Camponesa a Semear Batatas, e Camponesa a Semear Beterraba, Salgueiro Pollard ou Casita em Brabant, o seu inegável talento desabrocharia no controverso quadro, também a preto e branco, Comedores de Batata, e embora ainda longe de Paris, seria na capital francesa, influenciado pelos Impressionistas e pela abundante literatura, bem como contactos directos com alguns dos principais romancistas da época, reflectido no seu quadro Romances Parisienses, que encontraria a pujante cor em que se notabilizaria, particularmente nos amarelos e encarnados ou vivos laranja, em Fevereiro de 1886, em que efusiamente se banhou, e que finalmente o consagraria, dois anos depois, em Arles, Provence, no sul do País e de onde sairíam obras notáveis. Em Arles, bem como na vizinha Saint-Remy-de-Provence, porém, depois de uma ansiada mas curta e violenta vivência com o seu admirador-artista, Paul Gauguin (1848-1903), frenético período, por ele classificado do “pouquíssimo do muito que aspirava fazer” (carta 777), onde foram produzidas algumas das suas mais notáveis obras. Seria ali, também, onde teria o seu primeiro ataque de depressão e onde ficaria internado, em Maio de 1889, na clínica Saint-Paul-de-Mausole, e durante um ano, sofreria vários ataques mentais que embora interrompendo a sua ânsia de pintar, conseguiria, contudo, magníficos trabalhos.(*) Desconsolado, depois da alta, em Maio de 1890, decidiu transferir-se para o norte, Auvers-sur-Oise, pequena cidade a 30km nordeste de Paris, onde conhece o médico e artista amador, Dr Paul Gachet, com quem estabelece amizade e que eternizou no seu retrato. Ali, nos últimos 70 dias da sua curta vida, Van Gogh encontrou inspiração no “saudável e reconfortante” cenário local (carta 898), de onde, freneticamente, saíriam mais de 70 notáveis obras traduzidas no branco, azul, violeta e verdes suaves trabalhados em rico e variado pincel. Não obstante a pujante e revigorante nova natureza de Auvers, estes atributos não o impediram de enfrentar a morte, a 29 de Julho de 1899, encurtando tão notável talento que o Mundo Inteiro passaria a admirar, para sempre, em obras como as cadeiras, sua e de Gauguin, estas, talvez, a reflectir o profundo vazio da sua solidão; auto-retrato; retratos da família Roulin, e os admiráveis cenários dos campos e dos girassóis que tanto admirava, mas que não o conseguiram arrebatar da prematura e inesperada morte!
(*) Teria sido nesta fase, que segundo a teoria do especialista de arte e comentador de Van Gogh, Martin Bailey, que o pintor teria cortado a sua orelha. A razão, como afirmou, no número de Janeiro passado, Art Newspaper, Van Gogh ao receber a carta do irmão Theo, em que lhe revelava ir casar-se, pensando que deixaria de contar tanto com o apoio moral, mas especialmente financeiro, preocupado e revoltado cometeu tão tresloucado acto.
quinta-feira, 11 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
A NOVA AMEAÇA TERRORISTA
O terrorismo mundial, como se sabe, tem estado principalmente associado ao Islamismo Fundamentalista, e à al-Qaeda em particular. Surge, porém, uma nova ameaça, muito mais sofisticada como a que está a ser revelada pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, sigla inglesa), com sede em Londres. Esta mui internacionalmente respeitável e notável instituição, anunciou recentemente que está a surgir o conflito inter-estados, caracterizado pela utilização das chamadas técnicas assimétricas, das quais se salienta a guerra cibernética. Isto significa que a guerra convencional ou nuclear podem ser coisas do passado! Segundo o Director da IISS, Dr. John Chapman, “em relação à problemática da guerra cibernética, estamos actualmente na mesma fase intelectual à que nos encontrámos, nos anos 50, em relação à possibilidade de uma guerra nuclear”. Esta nova ameaça, à base, como o nome indica, da tecnologia informática, embora não totalmente dissecada em pormenor pelos peritos, os seus efeitos, em potencial, preocupam governos, nomeadamente o dos Estados Unidos da América (EUA). Em potencial, trata-se de uma ameaça, em termos práticos, não só aos sistemas informáticos de infra-estruturas como gás, electricidade, rede telefónica, etc. como às transacções financeiras ou outros meios que os possa incapacitar. Mas, pior ainda, interferir ou anular a integridade dos dados militares de um país.
Esta séria ameaça prontifica a NSA (Agência de Segurança Nacional), a principal entidade de segurança dos EUA, não só a ocupar-se dedicadamente à investigação do problema, como, recentemente, ultimar um pacto com Google, com o objectivo de defender a Agência de ciber-ataques levados a cabo por companhias ou governos estrangeiros. A Agência denunciou, recentemente, um alegado ataque por parte da China e, segundo outros peritos, outro à Coreia do Sul. Efectivamente a China é a principal suspeita, nomeadamente nos ataques à Google, como anunciava o Financial Times de 22 do mês passado, em que apontava como réus duas instituições académicas, Universidade Jiaotong de Xangai e Escola Vocacional de Lanxiang, ambas ligadas aos militares. Registaram-se igualmente, “ataques”, embora não de grande envergadura, e de origem ainda não identificada, aos sistemas informáticos de defesa da França, Alemanha e do Reino Unido. Outro alerta, foi dado há pouco tempo, pela sociedade informática NatWitness, que afirmou a existência de um ataque em grande escala, a 75 mil computadores em 196 países, incluindo Portugal (700) e, nomeadamente nos Estados Unidos, México, Arábia Saudita, Egipto e Turquia, principalmente a instituições estatais, empresas dos sectores bancário, tecnológico ou energético, ou ainda estabelecimentos de ensino. Como afirma outro especialista desta matéria, James A. Lewis, do Centro Internacional de Estudos Estratégicos (CSIS, sigla inglesa), embora os ataques conhecidos, particularmente de maior dimensâo, sejam de origem anónima, uma vez que a possibilidade de identificação é facilmente ocultada, a utilização dos chamados “botnets”, complicam ainda mais a atribuição da origem. Adianta ainda este perito que estudos adequados poderão ser bem sucedidos em revelar a origem desses ataques. Mesmo assim, persite o problema do nível de sofisticação do atacante ou atacantes, que poderá (ão) actuar clandestinamente. Para isso cita outro virus, o “Conflickr”, de natureza global, ao qual se deve a infecção de milhões de computadores e cuja origem está por identificar ou, pior, se estará ainda activo.
Porém, persistem outros problemas, apontados por John Chapman, que prometeu enfrentá-los com programas de investigação de mesas de trabalho a efectuar durante este ano pla sua organização, com o objectivo de, como definiu, “elaborar programas de arquitectura intelectual a fim de compreender este problema da guerra cibernética”. Dentre os principais, salientou: reconhecer a natureza do ataque; qual a defesa legítima; qual a doutrina aplicável a fim de se evitar o risco de ataques; haverá um método militar conhecido com o qual se possam evitar? E qual a lei internacional a aplicar a fim de regulamentar o risco?
Esta séria ameaça prontifica a NSA (Agência de Segurança Nacional), a principal entidade de segurança dos EUA, não só a ocupar-se dedicadamente à investigação do problema, como, recentemente, ultimar um pacto com Google, com o objectivo de defender a Agência de ciber-ataques levados a cabo por companhias ou governos estrangeiros. A Agência denunciou, recentemente, um alegado ataque por parte da China e, segundo outros peritos, outro à Coreia do Sul. Efectivamente a China é a principal suspeita, nomeadamente nos ataques à Google, como anunciava o Financial Times de 22 do mês passado, em que apontava como réus duas instituições académicas, Universidade Jiaotong de Xangai e Escola Vocacional de Lanxiang, ambas ligadas aos militares. Registaram-se igualmente, “ataques”, embora não de grande envergadura, e de origem ainda não identificada, aos sistemas informáticos de defesa da França, Alemanha e do Reino Unido. Outro alerta, foi dado há pouco tempo, pela sociedade informática NatWitness, que afirmou a existência de um ataque em grande escala, a 75 mil computadores em 196 países, incluindo Portugal (700) e, nomeadamente nos Estados Unidos, México, Arábia Saudita, Egipto e Turquia, principalmente a instituições estatais, empresas dos sectores bancário, tecnológico ou energético, ou ainda estabelecimentos de ensino. Como afirma outro especialista desta matéria, James A. Lewis, do Centro Internacional de Estudos Estratégicos (CSIS, sigla inglesa), embora os ataques conhecidos, particularmente de maior dimensâo, sejam de origem anónima, uma vez que a possibilidade de identificação é facilmente ocultada, a utilização dos chamados “botnets”, complicam ainda mais a atribuição da origem. Adianta ainda este perito que estudos adequados poderão ser bem sucedidos em revelar a origem desses ataques. Mesmo assim, persite o problema do nível de sofisticação do atacante ou atacantes, que poderá (ão) actuar clandestinamente. Para isso cita outro virus, o “Conflickr”, de natureza global, ao qual se deve a infecção de milhões de computadores e cuja origem está por identificar ou, pior, se estará ainda activo.
Porém, persistem outros problemas, apontados por John Chapman, que prometeu enfrentá-los com programas de investigação de mesas de trabalho a efectuar durante este ano pla sua organização, com o objectivo de, como definiu, “elaborar programas de arquitectura intelectual a fim de compreender este problema da guerra cibernética”. Dentre os principais, salientou: reconhecer a natureza do ataque; qual a defesa legítima; qual a doutrina aplicável a fim de se evitar o risco de ataques; haverá um método militar conhecido com o qual se possam evitar? E qual a lei internacional a aplicar a fim de regulamentar o risco?
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
GOVERNO BRITÃNICO VERGA-SE, FINALMENTE, À TRAGÉDIA DOS CHAMADOS “BEBÉS DA TALIDOMIDA”
Quase seis décadas volvidas, o governo britânico rendeu-se, finalmente, à fortemente resistida realidade, ao admitir a sua parte de culpabilidade no horrendo caso da Talidomida, também conhecido por “Bebés da Talidomida”. A tão insistida pelas vítimas existentes e suas famílias, e ansiada admissão de culpabilidade, foi, finalmente feita, no dia 14 de Janeiro passado, na Câmara dos Comuns, pelo Secretário de Estado da Saúde, Mike O'Brien, que apresentou a sua “sincera mágoa e profunda simpatia” tanto às vítimas como às suas famílias. Ao mesmo tempo confirmou a compensação de um fundo especial de 30 milhões de euros a atribuír ao Thalidomide Trust.
Recorde-se que o medicamento Talidomida, foi inicialmente lançado na Alemanha, a 1 de Outubro de 1957, pelo laboratório daquele país, Chemie Grunenthal e, vendido, inicialmente, no Reino Unido, a partir de Abril do ano seguinte, como Distaval, e, mais tarde, como Talidomida, pela companhia Distillers Biochemicals, parte da empresa de bebidas Distillers (actualmente Diageo). A mesma droga, tentativamente lançada nos Estados Unidos como Kevadon, não o chegou a ser devido à desconfiança da então Directora, Dr. Frances Kelly, do departamento nacional co-ordenador dos medicamentos, Federal Food and Drug Administration, na documentação sobre as investigações de segurança do produto, poupando, assim, possivelmente, milhares de vítimas naquele país. Considerado como “medicamento milagroso”, por, erroneamentente, estar isento de quaisquer efeitos colaterais, normalmente encontrados noutros barbitúricos, foi inicialmente prescrito, entre 1958 e 1961, como sedativo, pela classe médica, particularmente às mulheres grávidas, para combater o enjôo matinal, ansiedade, insónia, dores de cabeça e ataques de tosse. De milagroso, porém, cedo revelaria efeitos satânicos. A droga, da classe teratogénia, ou seja, produto que, tomado entre a quarta e a décima segunda semanas de gravidês, interfere com o desenvolvimento normal do êmbrio, provocaria a deformação dos bebés, nomeadamente no encurtamento dos braços e/ou das pernas, ou até, na completa ausência de ambos. Outros efeitos ocorreram tanto na provocação da cegueira como da surdês ou afectaram outros órgãos internos, inclusivamente os intestinos e o desenvolvimento das artérias. Só na Grã-Bretanha, mais de duas mil crianças foram afectadas, muitas delas nado-mortas, ou, pouco depois, 466 sobreviventes actuais, e, pelo menos, 10.000 outros casos, no mundo inteiro. Como resultado, a Talidomida foi, finalmente, retirada do mercado em 1961.
Face às deformações e à tragédia das vítimas e das famílias, muitas delas ostracizadas ou pelos ente-queridos mais directos, geralmente pais, que desconhecendo as origens, culpavam as mães, recusando reconhecer os filho(a)s, que classificavam de “monstros”, ou pelos vizinhos. O conceituado semanário britânico, The Sunday Times, então dirigido pelo reputado jornalista, Harold Evans, enfrentou o repto, inicialmente a custo do seu próprio prestígio pessoal. Na sua recente auto-biografia(*), este jornalista, agora galardoado com o título de “Sir”, conta que depois de se ter inicialmente encontrado com duas das deformadas vítimas, profundamente chocado, chamou a si a sua defesa sobre tão grande tragédia, que classificou da “mais emocionalmente e esgotante notícia que me envolveu no Sunday Times...”, montando uma das mais bem sucedidas e notáveis campanhas jornalísticas de todos os tempos, que, na altura, avidamente acompanhei. Notando, em 1967, que independentemete da tragédia humana, nenhuma das vítimas tinha sido recompensada, o que apenas veio a suceder depois da sua intensa campanha, em que sob enormes pressões a Distillers atribuíu 28 milhões de libras (actualmente cerca de 500 milhões de euros), semanal e impiedosamente, até 1969, como o caso justificava, o semanário, apresentando provas laboratoriais independentes, denunciava tanto o governo de então como e, principalmente, a companhia britânica, pela falta de adequados e rigorosos testes laboratoriais, limitando-se a confiar nas erróneos análises efectuadas pela companhia fabricante alemã. Como resultado, incluindo a longa batalha legal travada nos tribunais britânicos, e como consequência, da maior longevidade das vítimas, além da verba acima, sucessivamente actualizada, cada sobrevivente recebe, anualmente, 30.000 euros, independentemente do fundo governamental complementar de 39 milhões de euros agora atribuído pelo governo.
(*) My Paper Chase – True Stories of Vanished Times (A Minha Luta nos Jornais - Histórias Verdadeiras dos Tempos Idos) Edição Little, Brown (2010)
Recorde-se que o medicamento Talidomida, foi inicialmente lançado na Alemanha, a 1 de Outubro de 1957, pelo laboratório daquele país, Chemie Grunenthal e, vendido, inicialmente, no Reino Unido, a partir de Abril do ano seguinte, como Distaval, e, mais tarde, como Talidomida, pela companhia Distillers Biochemicals, parte da empresa de bebidas Distillers (actualmente Diageo). A mesma droga, tentativamente lançada nos Estados Unidos como Kevadon, não o chegou a ser devido à desconfiança da então Directora, Dr. Frances Kelly, do departamento nacional co-ordenador dos medicamentos, Federal Food and Drug Administration, na documentação sobre as investigações de segurança do produto, poupando, assim, possivelmente, milhares de vítimas naquele país. Considerado como “medicamento milagroso”, por, erroneamentente, estar isento de quaisquer efeitos colaterais, normalmente encontrados noutros barbitúricos, foi inicialmente prescrito, entre 1958 e 1961, como sedativo, pela classe médica, particularmente às mulheres grávidas, para combater o enjôo matinal, ansiedade, insónia, dores de cabeça e ataques de tosse. De milagroso, porém, cedo revelaria efeitos satânicos. A droga, da classe teratogénia, ou seja, produto que, tomado entre a quarta e a décima segunda semanas de gravidês, interfere com o desenvolvimento normal do êmbrio, provocaria a deformação dos bebés, nomeadamente no encurtamento dos braços e/ou das pernas, ou até, na completa ausência de ambos. Outros efeitos ocorreram tanto na provocação da cegueira como da surdês ou afectaram outros órgãos internos, inclusivamente os intestinos e o desenvolvimento das artérias. Só na Grã-Bretanha, mais de duas mil crianças foram afectadas, muitas delas nado-mortas, ou, pouco depois, 466 sobreviventes actuais, e, pelo menos, 10.000 outros casos, no mundo inteiro. Como resultado, a Talidomida foi, finalmente, retirada do mercado em 1961.
Face às deformações e à tragédia das vítimas e das famílias, muitas delas ostracizadas ou pelos ente-queridos mais directos, geralmente pais, que desconhecendo as origens, culpavam as mães, recusando reconhecer os filho(a)s, que classificavam de “monstros”, ou pelos vizinhos. O conceituado semanário britânico, The Sunday Times, então dirigido pelo reputado jornalista, Harold Evans, enfrentou o repto, inicialmente a custo do seu próprio prestígio pessoal. Na sua recente auto-biografia(*), este jornalista, agora galardoado com o título de “Sir”, conta que depois de se ter inicialmente encontrado com duas das deformadas vítimas, profundamente chocado, chamou a si a sua defesa sobre tão grande tragédia, que classificou da “mais emocionalmente e esgotante notícia que me envolveu no Sunday Times...”, montando uma das mais bem sucedidas e notáveis campanhas jornalísticas de todos os tempos, que, na altura, avidamente acompanhei. Notando, em 1967, que independentemete da tragédia humana, nenhuma das vítimas tinha sido recompensada, o que apenas veio a suceder depois da sua intensa campanha, em que sob enormes pressões a Distillers atribuíu 28 milhões de libras (actualmente cerca de 500 milhões de euros), semanal e impiedosamente, até 1969, como o caso justificava, o semanário, apresentando provas laboratoriais independentes, denunciava tanto o governo de então como e, principalmente, a companhia britânica, pela falta de adequados e rigorosos testes laboratoriais, limitando-se a confiar nas erróneos análises efectuadas pela companhia fabricante alemã. Como resultado, incluindo a longa batalha legal travada nos tribunais britânicos, e como consequência, da maior longevidade das vítimas, além da verba acima, sucessivamente actualizada, cada sobrevivente recebe, anualmente, 30.000 euros, independentemente do fundo governamental complementar de 39 milhões de euros agora atribuído pelo governo.
(*) My Paper Chase – True Stories of Vanished Times (A Minha Luta nos Jornais - Histórias Verdadeiras dos Tempos Idos) Edição Little, Brown (2010)
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
A INVASÃO DO IRAQUE... SEGUNDO TONY BLAIR
A longa expectativa do inédito depoimento-maratona de um ex Primeiro-Ministro
britânico, na Sexta-feira 29 de Janeiro, no Inquérito sobre o Iraque, que desde Julho decorre no belo Centro Elizabeth II, nas proximidades do Parlamento, e em frente à Abadia de Westminster, pariu...um nado morto! Quem esperasse algo de novo, possivelmente residente noutro planeta, com uma ou duas excepções que adiante veremos, baseado naquilo que publicamente se sabe, terá ficado profundamente decepcionado(a).
Insistindo, na sua convicção de que, graças a uma intensa preparação da invasão, sem Saddam, o Iraque estava muito melhor, não obstante a lista de mortos e da destruição do país, de que foi lembrado pelo interrogador e brilhante historiador, “Sir” Lawrence Freedman, e que, o único inesperado, pós-invasão, foi a acção tanto do Irão como de al-Qaida, e descontando, continuamente, não ter sido escravo ou, como a imprensa britânica o classificou de “cãozinho na trela”, do Presidente Bush, mas que a ele se aliou desde o ataque terrorista aos Estados Unidos da América, e que também o fez por “recear a reacção pesada dos americanos”!, o convicto antigo estadista insistiu que, segundo ele, remover Saddam fora um acto de imperiosa justiça! Quem não pôde esconder a sua surpresa, foram as dezenas de seleccionados representantes dos 197 soldados britânicos mortos no Iraque, que enchiam as filas de assentos imediatamente atrás de Tony Blair!
Não surpreende que, no decorrer do longo depoimento, sem nunca ter manifestado qualquer sentimento de contricção, ou até a incompreensível ausência de uma simples mênção ou homenagem às tropas britânicas, principalmente aos jovens soldados que deram a vida durante a Ocupação, quando a oportunidade redentora lhe foi dada pelo Presidente do Inquérito, “Sir” John Chilcot, se não lamentava ou estaria arrependido, o interrogado limitou-se a afirmar que embora sentindo grande espírito de responsabilidade “nada lamento por ter removido Saddam Hussein, que era um monstro”. A única excepção, confessou, foi o facto de não ter conseguido convencer a avassaladora maioria do povo britânico que se opôs a tão hodiendo acto! No que foi imediatamente seguido por várias pessoas, com lágrimas nos olhos, a afirmarem “és um mentiroso!” “és um criminoso!”. Como estas intervenções fossem prontamente suprimidas pelo Presidente, não só as mesmas pessoas, como outros familiares, quando Blair se retirava, tiveram a oportunidade de lhe lembrar que “tinha as mãos cheias de sangue”. Entretanto, cá fora, mas a duas dezenas de metros, da entrada do Centro, uma multidão, desde as 0730 da manhã, até ao fim da audiência, às 1710, envergando cartazes dizendo “Bliar” (composição das letras do nome Bl, com liar (mentiroso), gritava, bem alto, epítetos pouco edificantes. Outros, aguardavam a oportunidade de linchar, mas ordenar a prisão civil (um dos privilégios da justiça britânica!) ao ex Primeiro-Ministro, o que, obviamente, não conseguiram devido ao excelente planeamento e protecção da centena de agentes de segurança. O que Blair também não conseguiu foi convencer os milhares de cépticos, em todo o país, que acompanharam a cobertura em directo.
Inicial e invulgarmente nervoso, com voz embargada, o ex Primeiro-Ministro gradualmente ganhou a confiança, na invulgar maratona de seis horas a que foi submetido. Começando por afirmar que a infame e provadamente errónea citação, base do Depoimento dos Serviços Secretos Britânicos, que o regime de Saddam Hussein, além de possuír Armas de Destruição Massiça (ADM), que poderia usar em apenas 45 minutos, este o pretexto engendrado para a invasão em que os Americanos estavam determinados, Tony Blair afirmou, continuamente, a sua convicção na veracidade dos, para ele, considerados factos. Instado, várias vezes, a única cedência por ele admitida foi a de não se ter corrigido ou clarificado tal afirmação. O único momento de claro embaraço, por ele manifestado, quando interrogado, foi a sua afirmação, na entrevista à BBC (veja-se crónica de 14/01/2010), em que “ para destituir uma ameaça como Saddam, servir-me-ia de qualquer meio...pois tratava-se de uma obrigação moral”. Caracteristicamente “a la Blair”, descontou-a, afirmando ter sido lapso seu, “pelo que tenho de ter mais cuidado com os jornalistas”! Que inocente! Outra revelação, talvez a única: o facto de, não obstante as que afirmou 54 vezes em que o Problema do Iraque foi debatido em Conselho de Ministros, a admissão da parte mais crucial da legalidade da invasão, não conseguida pelo Conselho de Segurança – este o ÚNICO MÉRITO da acção de Blair- em relação à posição e insistência dos americanos em invadir, foi o facto do Procurador Geral, Lorde Smith, que, à semelhança da equipa legal do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que apenas com base na Resolução 1441, declarou a invasão ilegal sem o apoio das Nações Unidas, a figura legal mais importante em todo o processo, e inicialmente oposta à invasão, nunca ter estado presente em qualquer das reuniões do Gabinete! Um importante apontamento final: as abundantes mênções e críticas feitas ao Irão, por Tony Blair, apontam para a sua inegável intenção em determinar que â semelhança da remoção de Saddam, o regime iraniano dos Mulas, deve ser o próximo objectivo do Ocidente. Entretanto, segundo o matutino The Independent, de 1 deste mês, na divulgação de um documento altamente secreto, o governo britânico, numa prova de clara mentira de Blair, planeava a “mudança de regime” no Iraque, dois anos anos, desde 11 de Junho de 2001!
britânico, na Sexta-feira 29 de Janeiro, no Inquérito sobre o Iraque, que desde Julho decorre no belo Centro Elizabeth II, nas proximidades do Parlamento, e em frente à Abadia de Westminster, pariu...um nado morto! Quem esperasse algo de novo, possivelmente residente noutro planeta, com uma ou duas excepções que adiante veremos, baseado naquilo que publicamente se sabe, terá ficado profundamente decepcionado(a).
Insistindo, na sua convicção de que, graças a uma intensa preparação da invasão, sem Saddam, o Iraque estava muito melhor, não obstante a lista de mortos e da destruição do país, de que foi lembrado pelo interrogador e brilhante historiador, “Sir” Lawrence Freedman, e que, o único inesperado, pós-invasão, foi a acção tanto do Irão como de al-Qaida, e descontando, continuamente, não ter sido escravo ou, como a imprensa britânica o classificou de “cãozinho na trela”, do Presidente Bush, mas que a ele se aliou desde o ataque terrorista aos Estados Unidos da América, e que também o fez por “recear a reacção pesada dos americanos”!, o convicto antigo estadista insistiu que, segundo ele, remover Saddam fora um acto de imperiosa justiça! Quem não pôde esconder a sua surpresa, foram as dezenas de seleccionados representantes dos 197 soldados britânicos mortos no Iraque, que enchiam as filas de assentos imediatamente atrás de Tony Blair!
Não surpreende que, no decorrer do longo depoimento, sem nunca ter manifestado qualquer sentimento de contricção, ou até a incompreensível ausência de uma simples mênção ou homenagem às tropas britânicas, principalmente aos jovens soldados que deram a vida durante a Ocupação, quando a oportunidade redentora lhe foi dada pelo Presidente do Inquérito, “Sir” John Chilcot, se não lamentava ou estaria arrependido, o interrogado limitou-se a afirmar que embora sentindo grande espírito de responsabilidade “nada lamento por ter removido Saddam Hussein, que era um monstro”. A única excepção, confessou, foi o facto de não ter conseguido convencer a avassaladora maioria do povo britânico que se opôs a tão hodiendo acto! No que foi imediatamente seguido por várias pessoas, com lágrimas nos olhos, a afirmarem “és um mentiroso!” “és um criminoso!”. Como estas intervenções fossem prontamente suprimidas pelo Presidente, não só as mesmas pessoas, como outros familiares, quando Blair se retirava, tiveram a oportunidade de lhe lembrar que “tinha as mãos cheias de sangue”. Entretanto, cá fora, mas a duas dezenas de metros, da entrada do Centro, uma multidão, desde as 0730 da manhã, até ao fim da audiência, às 1710, envergando cartazes dizendo “Bliar” (composição das letras do nome Bl, com liar (mentiroso), gritava, bem alto, epítetos pouco edificantes. Outros, aguardavam a oportunidade de linchar, mas ordenar a prisão civil (um dos privilégios da justiça britânica!) ao ex Primeiro-Ministro, o que, obviamente, não conseguiram devido ao excelente planeamento e protecção da centena de agentes de segurança. O que Blair também não conseguiu foi convencer os milhares de cépticos, em todo o país, que acompanharam a cobertura em directo.
Inicial e invulgarmente nervoso, com voz embargada, o ex Primeiro-Ministro gradualmente ganhou a confiança, na invulgar maratona de seis horas a que foi submetido. Começando por afirmar que a infame e provadamente errónea citação, base do Depoimento dos Serviços Secretos Britânicos, que o regime de Saddam Hussein, além de possuír Armas de Destruição Massiça (ADM), que poderia usar em apenas 45 minutos, este o pretexto engendrado para a invasão em que os Americanos estavam determinados, Tony Blair afirmou, continuamente, a sua convicção na veracidade dos, para ele, considerados factos. Instado, várias vezes, a única cedência por ele admitida foi a de não se ter corrigido ou clarificado tal afirmação. O único momento de claro embaraço, por ele manifestado, quando interrogado, foi a sua afirmação, na entrevista à BBC (veja-se crónica de 14/01/2010), em que “ para destituir uma ameaça como Saddam, servir-me-ia de qualquer meio...pois tratava-se de uma obrigação moral”. Caracteristicamente “a la Blair”, descontou-a, afirmando ter sido lapso seu, “pelo que tenho de ter mais cuidado com os jornalistas”! Que inocente! Outra revelação, talvez a única: o facto de, não obstante as que afirmou 54 vezes em que o Problema do Iraque foi debatido em Conselho de Ministros, a admissão da parte mais crucial da legalidade da invasão, não conseguida pelo Conselho de Segurança – este o ÚNICO MÉRITO da acção de Blair- em relação à posição e insistência dos americanos em invadir, foi o facto do Procurador Geral, Lorde Smith, que, à semelhança da equipa legal do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que apenas com base na Resolução 1441, declarou a invasão ilegal sem o apoio das Nações Unidas, a figura legal mais importante em todo o processo, e inicialmente oposta à invasão, nunca ter estado presente em qualquer das reuniões do Gabinete! Um importante apontamento final: as abundantes mênções e críticas feitas ao Irão, por Tony Blair, apontam para a sua inegável intenção em determinar que â semelhança da remoção de Saddam, o regime iraniano dos Mulas, deve ser o próximo objectivo do Ocidente. Entretanto, segundo o matutino The Independent, de 1 deste mês, na divulgação de um documento altamente secreto, o governo britânico, numa prova de clara mentira de Blair, planeava a “mudança de regime” no Iraque, dois anos anos, desde 11 de Junho de 2001!
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A INVASÃO DO IRAQUE... SEGUNDO TONY BLAIR
domingo, 7 de fevereiro de 2010
HAITI – Hispaniola Amaldiçoada?
Uma das últimas e grandes tragédias naturais dos últimos sete anos, tem um novo nome, e uma nova vítima – Haiti! A começar por Bam (Sudeste do Irão), 26 de Dezembro 2003, 41,000 mortos; Banda Aceh (Sumatra, Indonésia), Pukhet (Tailândia), Sri Lanka, 26 de Dezembro de 2004, todas ligadas pelo maior tsuname de que há memória - centenas de milhar de mortos; Muzaffarabad (Norte do Paquistão), 8 de Outubro de 2005, 85,000 mortos; Chengdu (sudoeste de Sichuan. China), 12 de Maio de 2008, 60 mil mortos; L'Aquila (Itália central, proximidades de Abruzzo), 6 de Abril de 2009, pelo menos 294 mortos; Port-au-Prince (Capital d Haiti), às 1653 e 9 segundos, de 12 de Janeiro de 2010, arrasada por potente sismo, da escala 7 de Richter, provocado pelo choque das placas tectónicas, Caraíbas com a vizinha da América do Norte, ao longo da conhecida linha do sistema Enriquillo-Plantain Garden Fault, resultou na que continua a ser estimativa de 200,000 mortos, com 120 mil sepultados em valas comuns- compreendendo, igualmente, a estimativa de 100 mil crianças - e 193 mil feridos, muitos deles em estado grave. Tudo isto, descontando milhão e meio de habitações destruídas, pelo menos idêntico número de desalojados, e mais de um milhão de crianças órfãs, inescapável convite aos sem-escrúpulos do tráfico humano, vastíssima destruição material, incluindo as pobres infra-estruturas, tanto hospitais, palácio presidencial e edifícios ministeriais, bem como os de instituições de assistência, que em relação às Nações Unidas, em cujos escombros pereceram ainda 40 funcionários, acontecimento classificado pelo Secretário-Geral, Ban Ki-moon, como o maior desastre jamais sofrido nos 65 anos de história da Organização. E, se tudo isto não bastasse, novos sismos, o pior na escala de 6.1, se fizeram sentir uma semana depois, apavorando, compreensivelmente, os pobres sobreviventes. Segundo peritos, a reconstrução de Port-au-Prince levará, pelo menos, dez anos. À semelhança de Banda Aceh, Pukhet e Sri Lanka, um novo e extraordinário desafio. Mas, sobretudo, um dos maiores desafios-apelo à solidariedade humana em que a generosidade mundial, fielmente, está a corresponder de uma forma admirável!
Em apenas uma semana, os donativos do mundo inteiro superaram 300 milhões de euros! Só a sempre generosa Grã-Bretanha, nesse curto espaço de tempo, contribuíu com donativos voluntários e não governamentais, de 45 milhões de euros e os Estados Unidos 240 milhões, bem como o nosso país 120 mil euros! A esta última verba, acrescentem-se outras iniciativas notáveis como a realização do jogo de futebol de beneficência, entre o Benfica e Amigos de Zidane/Ronaldo, no Estádio da Luz, a 25 do mês passado, que além da receita de bilheteira - 513 mil euros - há que acrescentar os direitos televisivos e comerciais, que segundo fontes da organização, totalizaram, no conjunto, "alguns milhões de euros". A esta vaga de solidariedade, seguiu-se a generosidade de conhecidos artistas de cinema, como George Clooney, a doar 1,5 milhão de euros, as dádivas milionárias de Gisele Bündchen ou de Leonardo DiCaprio, bem como da cançonetista Celine Dion, 750 mil, além da maratona televisiva mundial, de 22 do mês passado, em que tomaram parte importantes figuras do mundo pop, como Madonna, Shakira e Sting (para mencionar apenas alguns) e artístico, não só cantando, mas atendendo o telefone em conversa com os dadores, como foi o caso principalmente da famosa artista cinematográfica, Julia Roberts, e que já rendeu cerca de 50 milhões de euros, como a gravação de uma canção cujos rendimentos revertem para o Fundo Comum do Desastre. Mas que dizer de Ben uma criança londrina, de apenas cinco anos de idade, que pedalando na sua pequena bicicleta, orgulhosamente envergando a camisola da UNICEF, espera angariar pelo menos 600 euros para o Fundo do Haiti? Neste enorme e generoso pano de fundo, agiganta-se o testemunho e o estoicismo da resistência dos vivos, mas especialmente à valente centena e meia de resgatados vivos dos escombros, adultos, incluindo uma senhora de 84 anos de idade, e, incrivelmente, 15 dias depois, a jovem Darlene Etienne, de 16 anos que sobreviveu ao beber água de uma banheira, bem como várias crianças, verdadeiros herois resistentes, sem descontar, claro, as incessantes equipas de voluntários salvadores, legião de 1739, homens e mulheres, provenientes do mundo inteiro, incluindo Portugal. Tudo isto, a contrastar com o inicialmente confuso e comprovadamente inepto exército de assistência humanitária (??!!), liderado pelos americanos, que com centenas de famintos, apenas a 200 metros da base de abastecimento principal, o Aeroporto, dez dias depois, continuavam, famintos e sedentos, à mercê...do nada! Esta situação mereceu o comentário do Presidente Italiano da Defesa Civil, Guido Bertolaso, o homem responsável pela assistência, depois do terramoto de L'Aquila, de “situação patética pela falta de coordenação” Condenando os americanos, afirmando que “confundiram o estado de emergência com a ocupação do Haiti (…) muitos figurantes para o show da TV”! Na realidade, duas semanas depois, não obstante os milhares de militares americanos e o seu precioso equipamento, bem como abastecimentos, nomeadamente provenientes do navio Carl Vinson, predominava a confusão e pecava a falta da necessária assistência à faminta e sequiosa multidão. Todos estes episódios, individuais, mas em sua maioria colectivos, do desolador cenário destruidor, fica-se a dever às imagens e narrativa dos muitas vezes esquecidos, e até ingloriamente aviltados, fotógrafos, operadores de câmara e centenas de jornalistas que, sem eles, ignorando a sua própria segurança, não se faria a mínima ideia desta primeira enorme tragédia da segunda década do século XXI.
Sismos, embora de pequena dimensão, ocorrem com frequência.em todo o Globo. Outros, gigantescos, como o de Cracatôa, na Indonésica Sumatra, a 27 de Agosto de 1883, pairam na longa história dos desastres naturais. Nenhum porém, teve as dimensões deste mais recente, no Haiti, nem as circunstâncias da reconstrução das zonas destruídas. Não obstante a boa-vontade mundial e os donativos já recebidos, que, obviamente, não são suficientes, nem tão-pouco o optimismo do antigo Presidente Bill Clinton, desde há muito amigo do Haiti, mas agora nomeado Embaixador da ONU para a reconstrução do país, as perspectivas, porém, apresentam-se complicadas. Sem governo, sem infra-estruturas, aliás já inexistentes antes da tragédia, sem lei nem ordem, com as estruturas político-sociais destroçadas, tremendamente pobre, com uma sociedade conhecida pela violência, geralmente desgovernada, agora mais carecida de pessoal médico e de enfermagem, para assistir aos feridos, segundo personalidades responsáveis, a reconstrução física tem de partir do nada, incluindo o tecido social! Oxalá que os sobreviventes haitianos, apoiados pela enorme vaga de solidariedade mundial, chamem a si a honra dos mortos e o estoicismo dos que foram resgatados, 11 dias depois, o dever de, finalmente, construírem o tão almejado futuro! Será que, em toda esta tragédia, São Ireneu teria razão, ao afirmar que “a bondade humana é particularmente palpável no sofrimento do povo”?
Desde a chegada de Cristóvão Colombo, em 1492, em que foi baptizada de Hispaniola, esta parte ocidental da ilha caraibena, foi malfadada pela doença importada pelos visitantes-”descobridores” e, devido às horríveis condições de trabalho, a maioria da população nativa dizimada. Cedida à França em 1697, e rebaptizada de Haiti, com base no nome do lugar nativo, Ayti (País Montanhoso), com a importação massiça de escravos da África Ocidental cujos músculos devastaram as ricas florestas nativas para, em seu lugar, surgir a então lucrativa plantação da cana do acúcar, de cujo labor, suor, fomes e muitas lágrimas, incluindo vidas, viria a ser principal exportadora. Com a revolta iniciada, e liderada, por François Dominique Toussaint (1743-1803), oriundo de famílias de escravos ricos, iniciou-se a longa fase de turbulência que, ao fim de 13 anos, viria a resultar na Independência, em 1804, dando origem à formação da primeira república negra mundial, com Jean-Jacques Dessaline como seu primeiro Imperador. Morto dois anos depois, reacende-se a desordem, dando lugar à ocupação americana por ordem do Presidente americano Woodrow Wilson, a pretexto da chamada Doutrina Monroe. Com a retirada das forças ocupantes em 1934, o doutor de Vooddo, François Duvalier, assume o Poder em 1957, passando a ser conhecido por “Papa Doc”, devido à sua tão propalada, mas não concretizada promessa, de devolver o Poder às massas. Em seu lugar, transforma o país num Estado-Policial, dando início a longo e negro período de ditadura, desregrada tortura e morte aos adversários, estendendo-o ao filho, em 1971, que se auto-intitulou Presidente Vitalício! Nas primeiras eleições livres, em 1990, porém, o padre Jean-Bertrand Aristide assume o Poder, mas é deposto, menos de oito meses depois, voltando a desordem e a instabilidade a predominar no pobre país provocando grande êxodo de pessoas a afluír à Flórida, arriscando a vida, em pequenas e frágeis embarcações, seguindo-se-lhe uma junta militar. Com a autorização da Junta, porém, o então Presidente Bill Clinton envia 20,000 tropas, em 1994, para estabelecer a ordem. Entretanto surge a cavalgante SIDA que mina o infeliz país, para onde regressa Aristide em 2001, que, no entanto, é forçado a novo exílio, em 2004. A tragédia continua, com desastres naturais causados pelos devastadores furacões de 2005 e 2008. E, quando em 2009, se notavam, finalmente, indícios das tão ansiadas melhorias, no princípio de 2010, surge o vasto terramoto! Agora, com a reconstrução, HISPANIOLA/HAITI, finalmente a oportunidade de deixares de ser escrava?
Em apenas uma semana, os donativos do mundo inteiro superaram 300 milhões de euros! Só a sempre generosa Grã-Bretanha, nesse curto espaço de tempo, contribuíu com donativos voluntários e não governamentais, de 45 milhões de euros e os Estados Unidos 240 milhões, bem como o nosso país 120 mil euros! A esta última verba, acrescentem-se outras iniciativas notáveis como a realização do jogo de futebol de beneficência, entre o Benfica e Amigos de Zidane/Ronaldo, no Estádio da Luz, a 25 do mês passado, que além da receita de bilheteira - 513 mil euros - há que acrescentar os direitos televisivos e comerciais, que segundo fontes da organização, totalizaram, no conjunto, "alguns milhões de euros". A esta vaga de solidariedade, seguiu-se a generosidade de conhecidos artistas de cinema, como George Clooney, a doar 1,5 milhão de euros, as dádivas milionárias de Gisele Bündchen ou de Leonardo DiCaprio, bem como da cançonetista Celine Dion, 750 mil, além da maratona televisiva mundial, de 22 do mês passado, em que tomaram parte importantes figuras do mundo pop, como Madonna, Shakira e Sting (para mencionar apenas alguns) e artístico, não só cantando, mas atendendo o telefone em conversa com os dadores, como foi o caso principalmente da famosa artista cinematográfica, Julia Roberts, e que já rendeu cerca de 50 milhões de euros, como a gravação de uma canção cujos rendimentos revertem para o Fundo Comum do Desastre. Mas que dizer de Ben uma criança londrina, de apenas cinco anos de idade, que pedalando na sua pequena bicicleta, orgulhosamente envergando a camisola da UNICEF, espera angariar pelo menos 600 euros para o Fundo do Haiti? Neste enorme e generoso pano de fundo, agiganta-se o testemunho e o estoicismo da resistência dos vivos, mas especialmente à valente centena e meia de resgatados vivos dos escombros, adultos, incluindo uma senhora de 84 anos de idade, e, incrivelmente, 15 dias depois, a jovem Darlene Etienne, de 16 anos que sobreviveu ao beber água de uma banheira, bem como várias crianças, verdadeiros herois resistentes, sem descontar, claro, as incessantes equipas de voluntários salvadores, legião de 1739, homens e mulheres, provenientes do mundo inteiro, incluindo Portugal. Tudo isto, a contrastar com o inicialmente confuso e comprovadamente inepto exército de assistência humanitária (??!!), liderado pelos americanos, que com centenas de famintos, apenas a 200 metros da base de abastecimento principal, o Aeroporto, dez dias depois, continuavam, famintos e sedentos, à mercê...do nada! Esta situação mereceu o comentário do Presidente Italiano da Defesa Civil, Guido Bertolaso, o homem responsável pela assistência, depois do terramoto de L'Aquila, de “situação patética pela falta de coordenação” Condenando os americanos, afirmando que “confundiram o estado de emergência com a ocupação do Haiti (…) muitos figurantes para o show da TV”! Na realidade, duas semanas depois, não obstante os milhares de militares americanos e o seu precioso equipamento, bem como abastecimentos, nomeadamente provenientes do navio Carl Vinson, predominava a confusão e pecava a falta da necessária assistência à faminta e sequiosa multidão. Todos estes episódios, individuais, mas em sua maioria colectivos, do desolador cenário destruidor, fica-se a dever às imagens e narrativa dos muitas vezes esquecidos, e até ingloriamente aviltados, fotógrafos, operadores de câmara e centenas de jornalistas que, sem eles, ignorando a sua própria segurança, não se faria a mínima ideia desta primeira enorme tragédia da segunda década do século XXI.
Sismos, embora de pequena dimensão, ocorrem com frequência.em todo o Globo. Outros, gigantescos, como o de Cracatôa, na Indonésica Sumatra, a 27 de Agosto de 1883, pairam na longa história dos desastres naturais. Nenhum porém, teve as dimensões deste mais recente, no Haiti, nem as circunstâncias da reconstrução das zonas destruídas. Não obstante a boa-vontade mundial e os donativos já recebidos, que, obviamente, não são suficientes, nem tão-pouco o optimismo do antigo Presidente Bill Clinton, desde há muito amigo do Haiti, mas agora nomeado Embaixador da ONU para a reconstrução do país, as perspectivas, porém, apresentam-se complicadas. Sem governo, sem infra-estruturas, aliás já inexistentes antes da tragédia, sem lei nem ordem, com as estruturas político-sociais destroçadas, tremendamente pobre, com uma sociedade conhecida pela violência, geralmente desgovernada, agora mais carecida de pessoal médico e de enfermagem, para assistir aos feridos, segundo personalidades responsáveis, a reconstrução física tem de partir do nada, incluindo o tecido social! Oxalá que os sobreviventes haitianos, apoiados pela enorme vaga de solidariedade mundial, chamem a si a honra dos mortos e o estoicismo dos que foram resgatados, 11 dias depois, o dever de, finalmente, construírem o tão almejado futuro! Será que, em toda esta tragédia, São Ireneu teria razão, ao afirmar que “a bondade humana é particularmente palpável no sofrimento do povo”?
Desde a chegada de Cristóvão Colombo, em 1492, em que foi baptizada de Hispaniola, esta parte ocidental da ilha caraibena, foi malfadada pela doença importada pelos visitantes-”descobridores” e, devido às horríveis condições de trabalho, a maioria da população nativa dizimada. Cedida à França em 1697, e rebaptizada de Haiti, com base no nome do lugar nativo, Ayti (País Montanhoso), com a importação massiça de escravos da África Ocidental cujos músculos devastaram as ricas florestas nativas para, em seu lugar, surgir a então lucrativa plantação da cana do acúcar, de cujo labor, suor, fomes e muitas lágrimas, incluindo vidas, viria a ser principal exportadora. Com a revolta iniciada, e liderada, por François Dominique Toussaint (1743-1803), oriundo de famílias de escravos ricos, iniciou-se a longa fase de turbulência que, ao fim de 13 anos, viria a resultar na Independência, em 1804, dando origem à formação da primeira república negra mundial, com Jean-Jacques Dessaline como seu primeiro Imperador. Morto dois anos depois, reacende-se a desordem, dando lugar à ocupação americana por ordem do Presidente americano Woodrow Wilson, a pretexto da chamada Doutrina Monroe. Com a retirada das forças ocupantes em 1934, o doutor de Vooddo, François Duvalier, assume o Poder em 1957, passando a ser conhecido por “Papa Doc”, devido à sua tão propalada, mas não concretizada promessa, de devolver o Poder às massas. Em seu lugar, transforma o país num Estado-Policial, dando início a longo e negro período de ditadura, desregrada tortura e morte aos adversários, estendendo-o ao filho, em 1971, que se auto-intitulou Presidente Vitalício! Nas primeiras eleições livres, em 1990, porém, o padre Jean-Bertrand Aristide assume o Poder, mas é deposto, menos de oito meses depois, voltando a desordem e a instabilidade a predominar no pobre país provocando grande êxodo de pessoas a afluír à Flórida, arriscando a vida, em pequenas e frágeis embarcações, seguindo-se-lhe uma junta militar. Com a autorização da Junta, porém, o então Presidente Bill Clinton envia 20,000 tropas, em 1994, para estabelecer a ordem. Entretanto surge a cavalgante SIDA que mina o infeliz país, para onde regressa Aristide em 2001, que, no entanto, é forçado a novo exílio, em 2004. A tragédia continua, com desastres naturais causados pelos devastadores furacões de 2005 e 2008. E, quando em 2009, se notavam, finalmente, indícios das tão ansiadas melhorias, no princípio de 2010, surge o vasto terramoto! Agora, com a reconstrução, HISPANIOLA/HAITI, finalmente a oportunidade de deixares de ser escrava?
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
ESPANHA – PRIMEIRA COBAIA DA “NOVA” UNIÃO EUROPEIA
Com, finalmente, a entrada em vigor do controverso e tão contestado Tratado de Lisboa que, segundo múltiplos comentadores, facilita e resolve muitos dos problemas funcionais da União Europeia (UE), particularmente em Política Externa, o novo Tratado vai ser posto à prova, com a Espanha, na Presidência Rotativa, como cobaia, entre Janeiro e Junho. Com uma Presidência Tricéfala, ou, mais precisamente, Quadricéfala - (Presidente Permanente do Conselho, Herman Van Rompuy, antigo primeiro-ministro belga, em exercício, durante dois anos e meio; José Manuel Barroso como Presidente da Comissão, neste caso, funções executivas, cujo segundo mandato até 2014, vai ser inaugurado na próxima segunda-feira, 1 de Fevereiro; José Luis Rodriguez Zapatero, como primeiro-ministro da Presidência Espanhola, até finais de Junho; Catherine Ashton, antiga Comissária Britânica do Comércio e Alta Representante da Política Externa, ou Chefe da Diplomacia da UE, cargo mais conhecido pela designação de Serviço Europeu de Acção Externa, (SEAE), posto que, à semelhança do Presidente do Conselho, foi também criado pelo Tratado de Lisboa.
Como as presidências rotativas detinham o Poder exclusivo total da UE, durante todos os semestres, condicionado à cimeira de encerramento e à aprovação pelo Conselho de Chefes de Estado e Primeiros-Ministros, do Programa final, que passaria ao Cânone Legal, da UE agora, sob o novo Tratado, embora se mantenham as decisões executivas, a GRANDE alteração é a redução dos poderes do país rotativo em exercício, limitada apenas a Assuntos Gerais, Finanças, Agricultura. Outra inovação, envolve o Parlamento Europeu, com maiores poderes e a quem compete a importante palavra final. Neste enquadramento, cabe à Espanha, como o primeiro pais-cobaia do novo sistema, o verdadeiro teste da tão apregoada EFICIÊNCIA. Porém, como apontava o matutno francês Le Figaro (01/01/10), baseado numa análise da eminente Fundação Robert-Schuman “a representação externa da União estará longe de uma unificação completa pelo que corre riscos de cacofonia”, devido, como se sabe, à já conhecida experiência dos interesses nacionais dos 27, que nem sempre coincidem com os desejáveis interesses comuns da UE. E, neste contexto, pergunta-se: como é que se portarão tanto o Presidente francês, Nicolas Sarkozy como a “Chanceler” alemã, Angela Merkel, que até aqui eram conhecidas sonoras porta-vozes da UE? Não! Garantiram, tanto Van Rompuy, como Zapatero, no dia oito deste mês, em Madrid, segundo o El Pais, a Europa, por necessidade de sobrevivência “deve dotar-se de um sistema reforçado de coordenação”. Em todo este contexto, uma nova incógnita: que papel e influência em apregoadas reformas terá certamente o novo e determinado primeiro-ministro britânico, David Cameron, depois da esperada vitória eleitoral a partir de Maio próximo, bem como, a possível acção do grupo terrorista ETA?
No Comunicado Conjunto, assinado tanto por Herman Van Rompuy como por José Luis Rodriguez Zapatero, foi assinalado que “como presidentes do Conselho Europeu e do Governo da Presidência rotativa, queremos que a aplicação fundacional do Tratado de Lisboa seja o mais diligente e rigorosa possível. Com plena lealdade e espírito de co-operação, iremos impulsionar a consolidação da nova ordem institucional da União no sentido de resolver os problemas concretos que a todos nós preocupa”. Prometendo trabalhar de mãos dadas, a expectativa é saber se assim vai suceder, a partir da Cimeira Inicial de Chefes de Estado, em Bruxelas, no próximo dia 11 do mês que vem, que além dos urgentes assuntos económicos abordará, igualmente, os problemas climáticos. Embora hajam interesses comuns, nomeadamente a Crise Económica Europeia, os problemas nacionais da Espanha, com um primeiro-ministro acossado por enormes pressões, as maiores desde que assumiu o Poder, em 2004 - económicos e de desemprego - os mais elevados de sempre, 3 milhões, 923 mil e 603, em toda a UE, com a excepçâo da Lituânia, e com um eleitorado – 87% dos sondados (El Mundo 05/01/'10) - insatisfeito com a sua acção, obviamente é o primeiro interessado em fazer deste primeiro teste, e semestre inicial, o mais bem sucedido possível, como, aliás, apontava o matutino espanhol El Mundo (05/01/10), em que o principal desafio da presidência espanhola é “sem dúvida, a profunda crise de que padece o Continente”, (…) “que exige de Zapatero, como ele próprio prometeu, medidas e estratégias coordenadoras prioritárias para se saír da recessão e voltar a gerar postos de trabalho”, embora, como também o articulista salienta, a credibilidade de Zapatero, tanto em relação à situação do país, como às medidas por ele até aqui tomadas, não lhe sejam favoráveis. Para além deste objectivo prioritário da Agenda, acordada com o Presidente Van Rompuy, com base na Estratégia de Crescimento e Emprego, rasgada pela Presidência Portuguesa na Agenda de Lisboa, constam, nomeadamente: plena aplicação funcional, o mais “diligente e rigorosa possível” do Tratado de Lisboa, com maior ênfase aos direitos humanos e maior destaque ao papel e influência da UE no mundo inteiro. Outra proposta, esta sobre a necessidade de mais poderes económicos para a UE, com compromissos obrigatórios e sanções para quem não os cumpra, poderá ser muito controversa. Além destes, a Espanha propõe, e aqui poderá estar em choque com Catherine Ashton, pois são exclusivo do seu novo domínio, mini-cimeiras - Latino-Americana, visando a aproximação com Cuba, e Mediterrânica, visando a activação do Plano de Paz Israelo-Palestiniano. Entretanto, os primeiros passos foram já iniciados pela Espanha que convocou, no passado dia 5 deste mês, a reunião dos chamados “sábios”, no Palácio de Moncloa, em Madrid. Além de José Luís Zapatero estiveram presentes Jacques Delors, o mais notável ex-presidente da Comissão Europeia, o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe Gonzalez, o ex-comissário europeu da Economia Pedro Solbes e a actual ministra da Economia do governo espanhol, Elena Salgado. Dentre as medidas tomadas, constou o impulsionamento de uma política económica comum que fortaleça a posição e influência da EU no mundo. Defenderam a coordenação de medidas de aprofundamento do mercado interno europeu em domínios como a investigação e desenvolvimento ou o sector energético, mas também debateram a coordenação das políticas fiscais, assim como a reforma e aproximação da supervisão financeira europeia.
Como as presidências rotativas detinham o Poder exclusivo total da UE, durante todos os semestres, condicionado à cimeira de encerramento e à aprovação pelo Conselho de Chefes de Estado e Primeiros-Ministros, do Programa final, que passaria ao Cânone Legal, da UE agora, sob o novo Tratado, embora se mantenham as decisões executivas, a GRANDE alteração é a redução dos poderes do país rotativo em exercício, limitada apenas a Assuntos Gerais, Finanças, Agricultura. Outra inovação, envolve o Parlamento Europeu, com maiores poderes e a quem compete a importante palavra final. Neste enquadramento, cabe à Espanha, como o primeiro pais-cobaia do novo sistema, o verdadeiro teste da tão apregoada EFICIÊNCIA. Porém, como apontava o matutno francês Le Figaro (01/01/10), baseado numa análise da eminente Fundação Robert-Schuman “a representação externa da União estará longe de uma unificação completa pelo que corre riscos de cacofonia”, devido, como se sabe, à já conhecida experiência dos interesses nacionais dos 27, que nem sempre coincidem com os desejáveis interesses comuns da UE. E, neste contexto, pergunta-se: como é que se portarão tanto o Presidente francês, Nicolas Sarkozy como a “Chanceler” alemã, Angela Merkel, que até aqui eram conhecidas sonoras porta-vozes da UE? Não! Garantiram, tanto Van Rompuy, como Zapatero, no dia oito deste mês, em Madrid, segundo o El Pais, a Europa, por necessidade de sobrevivência “deve dotar-se de um sistema reforçado de coordenação”. Em todo este contexto, uma nova incógnita: que papel e influência em apregoadas reformas terá certamente o novo e determinado primeiro-ministro britânico, David Cameron, depois da esperada vitória eleitoral a partir de Maio próximo, bem como, a possível acção do grupo terrorista ETA?
No Comunicado Conjunto, assinado tanto por Herman Van Rompuy como por José Luis Rodriguez Zapatero, foi assinalado que “como presidentes do Conselho Europeu e do Governo da Presidência rotativa, queremos que a aplicação fundacional do Tratado de Lisboa seja o mais diligente e rigorosa possível. Com plena lealdade e espírito de co-operação, iremos impulsionar a consolidação da nova ordem institucional da União no sentido de resolver os problemas concretos que a todos nós preocupa”. Prometendo trabalhar de mãos dadas, a expectativa é saber se assim vai suceder, a partir da Cimeira Inicial de Chefes de Estado, em Bruxelas, no próximo dia 11 do mês que vem, que além dos urgentes assuntos económicos abordará, igualmente, os problemas climáticos. Embora hajam interesses comuns, nomeadamente a Crise Económica Europeia, os problemas nacionais da Espanha, com um primeiro-ministro acossado por enormes pressões, as maiores desde que assumiu o Poder, em 2004 - económicos e de desemprego - os mais elevados de sempre, 3 milhões, 923 mil e 603, em toda a UE, com a excepçâo da Lituânia, e com um eleitorado – 87% dos sondados (El Mundo 05/01/'10) - insatisfeito com a sua acção, obviamente é o primeiro interessado em fazer deste primeiro teste, e semestre inicial, o mais bem sucedido possível, como, aliás, apontava o matutino espanhol El Mundo (05/01/10), em que o principal desafio da presidência espanhola é “sem dúvida, a profunda crise de que padece o Continente”, (…) “que exige de Zapatero, como ele próprio prometeu, medidas e estratégias coordenadoras prioritárias para se saír da recessão e voltar a gerar postos de trabalho”, embora, como também o articulista salienta, a credibilidade de Zapatero, tanto em relação à situação do país, como às medidas por ele até aqui tomadas, não lhe sejam favoráveis. Para além deste objectivo prioritário da Agenda, acordada com o Presidente Van Rompuy, com base na Estratégia de Crescimento e Emprego, rasgada pela Presidência Portuguesa na Agenda de Lisboa, constam, nomeadamente: plena aplicação funcional, o mais “diligente e rigorosa possível” do Tratado de Lisboa, com maior ênfase aos direitos humanos e maior destaque ao papel e influência da UE no mundo inteiro. Outra proposta, esta sobre a necessidade de mais poderes económicos para a UE, com compromissos obrigatórios e sanções para quem não os cumpra, poderá ser muito controversa. Além destes, a Espanha propõe, e aqui poderá estar em choque com Catherine Ashton, pois são exclusivo do seu novo domínio, mini-cimeiras - Latino-Americana, visando a aproximação com Cuba, e Mediterrânica, visando a activação do Plano de Paz Israelo-Palestiniano. Entretanto, os primeiros passos foram já iniciados pela Espanha que convocou, no passado dia 5 deste mês, a reunião dos chamados “sábios”, no Palácio de Moncloa, em Madrid. Além de José Luís Zapatero estiveram presentes Jacques Delors, o mais notável ex-presidente da Comissão Europeia, o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe Gonzalez, o ex-comissário europeu da Economia Pedro Solbes e a actual ministra da Economia do governo espanhol, Elena Salgado. Dentre as medidas tomadas, constou o impulsionamento de uma política económica comum que fortaleça a posição e influência da EU no mundo. Defenderam a coordenação de medidas de aprofundamento do mercado interno europeu em domínios como a investigação e desenvolvimento ou o sector energético, mas também debateram a coordenação das políticas fiscais, assim como a reforma e aproximação da supervisão financeira europeia.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
O recente mandato de captura emitido por um tribunal da jurisdição de Westminster (Londres), contra a antiga primeira ministra e ministra dos negócios estrangeiros de Israel, Tzipi Livni, e actual dirigente do principal partido da oposição, o maioritário Kadima, embora a obrigasse a anular a programada participação numa conferência, na capital britânica, faz ressuscitar acção idêntica, principalmente emitida nos tribunais continentais europeus, contra o antigo primeiro-ministro israelita Ariel Sharon, acusado de crimes de guerra. Em relação à Grã-Bretanha, o mandato de captura a um dirigente político israelita, é o primeiro, o que, portanto, não surpreende o embaraço que provocou ao ministério britânico dos negócios estrangeiros e os esperados protestos por parte de Israel. O que os observadores não esperavam eram os termos utilizados. Porém, em Setembro passado, um advogado simpatizante pela causa palestiniana, invocando a “jurisdição universal”, tentou apresentar um mandato de captura contra Ehud Barak, o actual ministro de defesa de Israel. Mas devido à sua posição de membro do gabinete daquele país, invocou imunidade diplomática, pelo que viu gorados os seus intentos. Como Livni já não goza da mesma protecção, encontra-se numa posição mais vulnerável. Comentando a tentativa de que foi alvo, afirmou que “não tenho nenhum problema pelo facto do mundo pretender julgar Israel. O que não posso aceitar é que soldados das Forças de Defesa de Israel sejam comparados a terroristas”. Recorde-se que em 2005, o general na reforma, Doron Almog, foi obrigado a regressar a Israel sem ter saído do seu avião, no aeroporto de Londres (Heathrow), devido ao facto de um aviso de amigo impediu que fosse detido devido ao seu envolvimento num dos bombardeamentos da Faixa de Gaza em que matou 14 pessoas. Recorde-se, porém, que na totalidade, os ataques aquela região resultaram em 1400 mortos (segundo os palestinianos), mas apenas 1000, estimado pelos israelitas, em que estes sofreram apenas 13 baixas mortais. E os ataques e mortes, embora esporádicos, continuam!
Embora o primeiro-ministro daquele país, Binyamin Netanyahu, tivesse classificado a acção de “absurda”, o seu embaixador em Londres, Ron Prosor, foi muito mais além. Numa atitude interpretada como antidiplomática e arrogante, exigiu que "o governo britânico tem de assumir uma firme posição contra os seus tribunais se tornarem num parque de recreio dos extremistas contra Israel.“ Esta atitude por parte de um diplomata, que beneficia de plenos direitos das suas funções, demonstra não só uma intolerável intervenção na justiça de um Estado soberano, quando, pior, parece desconhecer a longa tradição da separação entre o poder jurídico e o governo que predomina no Reino Unido..
Já é notória a arrogância de Israel. Sempre que é criticado pelas suas desmedidas acções, o que tem vindo a acontecer com frequência: há três anos no Líbano e em Dezembro de 2008 na Faixa de Gaza. E as críticas acentuam-se, particularmente agora, segundo um relatório de autoria de 16 organizações humanitárias, incluindo as prestigiosas Oxfam e Amnistia Internacional. Aponta o documento, intitulado “Falando de Gaza: não há reconstrução, não há recuperação, nem tão pouco mais desculpas” estas influentes entidades dizem que “Israel, com o seu actual bloqueio (à Faixa de Gaza, que dura desde o ataque), está a castigar toda a população ali residente pelos actos de uns poucos (Hamas).” Este castigo é mais do que evidente quando, segundo fontes fidedignas das Nações Unidas, além de Israel impedir a entrada de obras primas para a reconstrução da destruição por ele provocada, como cimento e aço, raciona produtos alimentícios e medicamentos, sem os quais a pobre e sediada população não pode sobreviver. Noutras palavras: o controlo por parte de Israel é completo! Mas que dizer ainda tanto do escândalo, recentemente admitido pelas entidades israelitas de que, durante os anos 90, aos cadáveres dos palestinianos mortos eram retirados orgãos sem a autorização ou sem que as famílias das vítimas tivessem sido informadas, como da anunciada intenção de Israel em demolir 600 habitações de palestinianos, na velha zona (árabe) de Jerusalém, para erguer prédios israelitas. Enquanto o primeiro – inaceitável e indesculpável - caso, denunciado por um jornalista sueco, e admitido pelas autoridades israelitas; no segundo, a denúncia partiu do comissário do partido presidencial Fatah, Hatem Abdul-Qader, ambos conhecidos no fim do ano.Tudo isto, brada aos céus! Até quando? Até quando? Pergunta o mundo, apoiado pelos antigos profetas Jeremias e Isaías, que há muito semelhantemente clamaram em relação ao sofrimento de Israel!
Embora o primeiro-ministro daquele país, Binyamin Netanyahu, tivesse classificado a acção de “absurda”, o seu embaixador em Londres, Ron Prosor, foi muito mais além. Numa atitude interpretada como antidiplomática e arrogante, exigiu que "o governo britânico tem de assumir uma firme posição contra os seus tribunais se tornarem num parque de recreio dos extremistas contra Israel.“ Esta atitude por parte de um diplomata, que beneficia de plenos direitos das suas funções, demonstra não só uma intolerável intervenção na justiça de um Estado soberano, quando, pior, parece desconhecer a longa tradição da separação entre o poder jurídico e o governo que predomina no Reino Unido..
Já é notória a arrogância de Israel. Sempre que é criticado pelas suas desmedidas acções, o que tem vindo a acontecer com frequência: há três anos no Líbano e em Dezembro de 2008 na Faixa de Gaza. E as críticas acentuam-se, particularmente agora, segundo um relatório de autoria de 16 organizações humanitárias, incluindo as prestigiosas Oxfam e Amnistia Internacional. Aponta o documento, intitulado “Falando de Gaza: não há reconstrução, não há recuperação, nem tão pouco mais desculpas” estas influentes entidades dizem que “Israel, com o seu actual bloqueio (à Faixa de Gaza, que dura desde o ataque), está a castigar toda a população ali residente pelos actos de uns poucos (Hamas).” Este castigo é mais do que evidente quando, segundo fontes fidedignas das Nações Unidas, além de Israel impedir a entrada de obras primas para a reconstrução da destruição por ele provocada, como cimento e aço, raciona produtos alimentícios e medicamentos, sem os quais a pobre e sediada população não pode sobreviver. Noutras palavras: o controlo por parte de Israel é completo! Mas que dizer ainda tanto do escândalo, recentemente admitido pelas entidades israelitas de que, durante os anos 90, aos cadáveres dos palestinianos mortos eram retirados orgãos sem a autorização ou sem que as famílias das vítimas tivessem sido informadas, como da anunciada intenção de Israel em demolir 600 habitações de palestinianos, na velha zona (árabe) de Jerusalém, para erguer prédios israelitas. Enquanto o primeiro – inaceitável e indesculpável - caso, denunciado por um jornalista sueco, e admitido pelas autoridades israelitas; no segundo, a denúncia partiu do comissário do partido presidencial Fatah, Hatem Abdul-Qader, ambos conhecidos no fim do ano.Tudo isto, brada aos céus! Até quando? Até quando? Pergunta o mundo, apoiado pelos antigos profetas Jeremias e Isaías, que há muito semelhantemente clamaram em relação ao sofrimento de Israel!
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