quinta-feira, 27 de setembro de 2012
A MAIS LONGA, BEM PREPARADA E INCERTA JORNADA!
No Egito antigo, quem fosse rico, nobre, membro do alto clero ou da família real, a maior preocupação, depois da morte, era a preparação para a mais longa e incerta jornada da vida eterna. A ilustrá-lo o Museu Britânico montou uma das suas mais notáveis e raras exposições sobre este tema e, em particular, sobre O Livro da Morte. Não um simples volume, mas um conjunto ou de documentos, em papiro, ou simples inscrições nos caixões dos defuntos. Na realidade, o indispensável passaporte para o Além. Mas não a garantia de completo sucesso! No Livro da Morte constam tanto as virtudes em vida do falecido, como, e muito especialmente, a compilação de um guia de palavras mágicas que garantam o sucesso da travessia para a almejada eternidade. Na realidade uma janela aberta aos complexos credos e práticas dos egípcios antigos, quanto a uma das suas principais preocupações sobre o Além. Esta, uma das maiores – e única - mostras de sempre, reunindo numa só exposição a vasta documentação sobre este tema de que o Museu Britânico é possuidor! Uma das principais atrações, pela primeira vez exibidas na sua totalidade, é o mais longo Livro da Morte - 37 metros de comprimento! Trata-se do Papiro (Edith Mary) Greenfield, nome da colecionadora e dadora de tão raro e belo documento, ao Museu Britânico, em 1910. Além deste, constam ainda papiros raros sobre o mesmo tema, como é o caso do Papiro Hunefer, Anhai e Papiro Nebqed, este último especialmente emprestado pelo Museu do Louvre. Intitulada Jornada depois da Morte: O Antigo Livro da Morte Egípcio, esta excecional exposição reuniu a mais completa coleção tanto de papiros como de objetos de necrofilia – caixões, múmias e joias fúnebres raríssimas. O Livro da Morte era um dos objetos indispensáveis e variados. Desde o papiro enrolado à múmia, mas especialmente aos magnifica e laboriosamente ilustrados documentos, separadamente enrolados, talvez o mais notável seja o já citado Hunefer (cerca de 1289AC). Neste belíssimo manuscrito encontra-se todo o desenrolar gráfico da longa e incerta viagem para o Além. Retratando o escrivão real a entrar no Hades, liderado por Anubis, o deus de cabeça de jacal e protetor dos mortos, ao lugar do julgamento, onde, finalmente, o coração do escrivão é pesado e, dependendo da acusação e defesa, entrará na porta da vida eterna ou o coração consumido pelo Devorador (vejam-se mais adiante outros pormenores) e, consequentemente rechaçado. Como se afirmou acima, o indispensável passaporte para a eternidade! Na realidade os Livros eram variados e diferentes. Usados durante mais de 1500 anos, entre 1600AC e 100AD, até agora foram descobertos mais de 200 exemplares, alguns dos quais estão ainda a ser estudados. Todos em pergaminho, obviamente muitos deles em adiantado estado de deterioração, além dos já citados, outro igualmente notável é que foca Nesitanebisheru, mulher famosa e poderosa, que morreu cerca de 930AC, filha de Pinedjeni II, Sumo Pontífice de Amun e Thebes, também Soberano do Egito Superior. “Livro” diferente, pois nele constam dados invulgares a qualquer outro, talvez a pedido da falecida. Desde o ritual da abertura da boca do cadáver, a fim de insuflar energia e vida para a longa jornada, ao embalsamar, com o intuito de preservar e evitar a deterioração do corpo, ato classificado de sah, mas especialmente, a destituição de todas as impurezas para ascender à divindade, confirmada pela colocação da máscara dourada, símbolo do corpo dourado, a múmia, acompanhada de amuletos símbolo de poder e de proteção, ao ser colocada no caixão, jamais poderia ser vista por seres humanos. É aqui que se encomenda o corpo aos deuses de forma a que lhe seja dado o poder e o espírito de o controlar, especialmente na preservação do coração que para os antigos egípcios era a sede da razão e, a mente, como local de identidade. Porém, o maior teste da jornada é o julgamento. Tal como já foi antes abordado, ao descrever o Papiro Hunefer, no salão do julgamento sentam-se 14 deuses-juízes em frente dos principais, como Ra, deus do sol e criador do mundo, com cabeça de falcão; Osiris, deus dos mortos e do Hades, o único com cabeça humana idêntica à dos faraós, Thoth, com cabeça da ave Ibis, deus da escrita e do conhecimento, e Horus, filho de Isis e Osiris agindo como intermediário entre os mortos e Osiris. O candidato à vida eterna entra no salão conduzido por Anubis, o referido deus protetor dos mortos embalsamados, com cabeça de jacal, a quem compete pesar o coração na balança do julgamento. Depois de ouvida a defesa, a prova final está no peso do coração na balança e decidida a sua sorte. Caso se conclua a veracidade dos factos, provada pelo peso do coração, abrem-se as portas do paraíso, numa jornada bem sucedida; caso contrário é lançado no Hades, ato confirmado pelo coração devorado pelo Devorador, representado por cabeça de crocodilo, pernas frontais de leão e, da retaguarda, de hipopótamo.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
JOHAN ZOFFANY – Pintor e retratista observador da Sociedade
O nome de Johan Zoffany, como pintor, pode, à primeira vista, não despertar grande atenção do/a
leitor/a. Se assim é, não está só! O mesmo aconteceu comigo, pois era-me completamente
desconhecido! Não surpreende, que ao ver a exposição, realizada na reveladora Royal Academy of
Arts, em Piccadilly, em Londres, regressei maravilhado por tão inesperada e educativa experiência.
De origem alemã, natural de Francoforte, em cuja proximidade nasceu, em 1733, e onde, depois de
treino em Roma, na década de 1750, se notabilizou como artista, junto do influente prelado e
patrono, o eleitor, príncipe-arcebispo de Trier (Rineland, junto ao rio Mosele, na Alemanha), ao
mudar-se para Londres, em 1760, foi, porém, na capital britânica em que mais se notabilizaria.
Primeiro junto de altas figuras teatrais da época, como o ator empresário David Garrick (1717-
1779), do qual e de principais colegas seus, igualmente famosos, se notabilizou em inúmeros retratos, refletidos na excelente secção da exposição, “Garrick e o Palco Londrino”, em que revela um brilho invulgar, à altura, ou até ultrapassando muitos mestres-artistas consagrados, principalmente no detalhe e estrutura. A esta fase, seguiu-se outra mais importante, a introdução na
corte de Jorge III, com particular ênfase para a rainha Carlota e, daí a sua amiga, mais tarde admiradora e influente patrona, a Imperadora Maria Teresa da Áustria, de cuja família a ele se devem magníficos retratos. A demonstrá-lo, e em relação à primeira, na exposição destacava-se a
Rainha Carlota e os seus Dois Filhos mais Velhos (parte da Coleção Real britânica), em que Zoffany não só se destaca como invulgar artista, mas, acima de tudo, no novel tratamento da colocação dos intérpretes, numa pose doméstica. É, porém, na secção Royal Academy de que foi membro, em que o artista se revela e excela como pintor, diríamos fotógrafo, na seu extraordinário quadro de grupo de inúmeros membros, envolvidos na observação de um modelo masculino nu. Outro trabalho, subordinado a este tema, é o magnífico contraste, Academia vista à Luz da Lâmpada (1761-62), embora com menos personagens, de novo frente a um modelo masculino nu,
em que se destacam as múltiplas estatuetas na prateleira como pano de fundo. Porém, é na secção Famílias e Amigos em que Zoffany se destaca como retratista ímpar, predominando o contraste entre luz e pano de fundo, excedendo mestres da que tanto se notabilizou nesse domínio, a Escola Flamenga. Outro notável exemplo é o seu trabalho Thomas Rosaman e a sua Família (1781), ou ainda o extraordinário quadro, A Família Sharp (1779-81), em que se salienta, de novo, o contraste e o pormenor particularmente na roupagem, no primeiro, da mulher do homenageado e das filhas,
estas a apontar para o pai e o irmão, que se encontram num pequeno barco a remos com um contrastante e sombrio pano de fundo, e, no último, o pormenor dos vários participantes, incluindo o cão, em primeiro plano. Desta mesma classe, há, igualmente, que incluir o belo quadro Pedintes da Estrada para Stanmore (1769-70), John Caff e o seu Assistente (1772), este a predominar a simplicidade de um artífice e, ainda A Bancada de Fruta Florentina (1777), em que, além do esquisito pormenor dos vários vendedores, predomina, mais uma vez o elaborado contraste
luminoso ao sombrio fundo e das personagens e frutas. Igualmente notáveis, são os elaborados trabalhos de Zoffany, com miríade de personagens, como O Assalto À Adega do Rei, em Paris (1794), que, como resultado, retrata a centena ou mais de assaltantes, ébrios, em posições caricatas. Excelente e inolvidável revelação, de um artista, até aqui possivelmente pouco conhecido do grande público, e ao qual se fez jus, veio a falecer em Londres, em 1810 e cuja sepultura se encontra a par
de outro Mestre da pintura britânica, Thomas Gainsborough (1727-88), em Kew, onde viveu. A complementar a miríade de trabalhos, desta reveladora exposição faziam, igualmente parte, várias pinturas sobre cenários e personagens influentes de países que visitou, como a Índia e a Itália.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
AS FASCINANTES ENTRANHAS DE PARIS
Alexander Dumas conhecia-as muito bem, pois classificou-as da “consciência da cidade”. Foi dali que saíram os andrajosos vagabundos do seu fascinante e maravilhoso romance, Les Miserables, tão belamente adaptado para o teatro, como peça musical, por uma companhia londrina, que é sucesso de bilheteira há já vários anos, e era ali que se escondia o Corcunda de Notre Dame! Como as entranhas de Paris não são ficção, explorêmo-las, servindo-nos daqueles conhecidos por cataphiles como guias, cujos recônditos lhes são tão familiares!
A começar, os subterrâneos de Paris, antiquíssimos como são, são igualmente os mais extensos do mundo! No subterrâneo de Paris existem os mais variados espaços: Desde canais e reservatórios a criptas, cemitérios e caixas fortes subterrâneas para esconder e guardar as montanhas de ouro nacional! São, porém, as suas enormes pedreiras subterrâneas, perto da Catedral de Notre Dâme, que lhe deram vida e beleza, as famosas carriéres, cujas rochas deram lugar aos enormes e belos edifícios da superfície, que a tornaram famosa e, que até 1955, era ilegal visitá-las. A situação mudou por completo a partir de 1970, em que a revoltada cultura “punk” decidiu fazer delas e, descobrindo muitas outras, local de festas e orgias, centro
pinturas, mas também dominadas pela droga!
Atualmente, tal missão compete aos cataphiles, destemidos jovens, que ao insistirem explorá-las fazem delas “hóbi” permanente. Não obstante as tentativas da polícia especial, nunca conseguiu impedir o seu assédio. Antes deles, e durante a II Grande Guerra, as catacumbas da capital francesa foram refúgio de milhares de elementos da Resistência. Segredo bem guardado, principalmente para irritação dos ocupantes alemães!
Segundo o Prof. Philippe Charlier, da Universidade de Paris, que as estuda com todo o esmero, tanto a nível arqueológico como forênsico, no vasto cemitério subterrâneo estiveram seis milhões de corpos, o triplo da atual população da capital, de que apenas restam tíbias e crânios. Embora em sua maioria datados da Revolução Francesa, muitos remontam ao período Merovíngio, ou seja há mais de 1.200 anos. Porém, a descoberta das enormes pedreiras e até minas de gesso remontam ao período de Louis XIV, quando em 11774 se verificou um desabamento. Antes, porém, começaram aser usadas já nno século XII, de onde pedra continuou a ser extraída até que nos séculos XV e XVI foram reforçadas a fim de evitar maiores desabamentos. Muito acima delas o sistema de esgotos foram reforçados e aumentados no século XVIII, quando, pouco antes, mesmo no Palácio de Tulherias, o conteúdo dos penicos reais era atirado à rua e, no de Varsalhes, conhecido pelo fétido, aos terrenos vizinhos! Os bas fonds parisienses, não obstante a sua enorme extensão, ramificados em centenas de quilómetros, encontram-se praticamente todos identificados. Verdadeiras minas, neles têm-se encontrado diamantes e peças de ouro. Mas o maior tesouro, cerca de 2.600 toneladas, este oficial, está na profundidade de 36 metros, por baixo do Banco da França. A sua entrada, obviamente, é ultra-secreta Muito cobiçada pelos espertos gatunos, mas não obstante os esforços, não conseguiram dominar os pesados e maciços portões de aço! E, para os desenganar dizem que o acesso não é possível através da rede do velho metropolitano!
Nota: Agradecimento a National Geographic em que esta peça é baseada (edição inglesa – fevereiro de 2011)
terça-feira, 14 de agosto de 2012
"Dadores" de esperma, nova fonte de fortuna e...de problemas
Não foi a notícia do EXPRESSO (10 de abril passado), baseada no diário britânico The Daily Mail, sobre cientista britânico Bertold Wiesner, que terá doado o seu próprio esperma, durante 20 anos, estimando-se que seja pai biológico de cerca de 600 filhos, que deu origem a este importante controverso tema. Porém, a provar-se, o que já não é possível, devido à sua morte em 1972, este insólito caso, embora muitos dos seus filhos o confirmem, prontifica-nos a analisar o que está a ser um grande negócio, mas verdadeiro ninho de problemas, nos Estados Unidos da América (EUA).
Com os seus inúmeros bancos de esperma, em que o Cryobank, da Califórnia, é o maior do mundo
e que só em 2011 cujas vendas atingiram a astronómica verba de 35 milhões de euros, excluindo
claro outros três dominantes, que segundo o canal televisivo daquele país ABC News, controlam
65% do mercado global só dos EUA, capitalizando cerca de 150 milhões de euros, o esperma é
exportado para, pelo menos, 60 países. A razão, deve-se ao facto, primeiro do enorme número
mundial de casais inférteis, que segundo a organização Mundial de Saúde, só em 2006 em todo o
mundo havia entre 60 e 80 milhões de casais inférteis e, segundo, às leis dos vários países que regulamentam e, nalguns, proíbem tal negócio. Desde que o par britânico de cientistas - Profs. Robert Edwards e Patrick Steptoe descobriram e desenvolveram o seu sistema de concepção “in vítreo”, de que a primeira bebé proveta foi Louise Brown, no já distante 25 de julho de 1978, no então District General Hospital de Oldham, (actualmente Royal Oldham), na Grande Manchester, estes pioneiros dariam nova esperança a muitos casais inférteis. Porém, e sem que tivessem culpa,
dariam igualmente lugar a um verdadeiro quebra-cabeças. Se em termos de “dadores”,
principalmente nos EUA, embora e, em princípio, estejam limitados a 25 ou 30, com a proliferação de “bancos” e a falta de controlo entre eles, os “dadores” podem fazer na média 45 mil euros por ano. A questão, a grande questão, é o anonimato. Se bem que a maioria dos “bancos”, principalmente pelo compreensível interesse dos clientes, em procurarem o mais possível a origem do esperma, têm de ser seletivos, quando procuram evitar doenças, nomeadamente as de natureza sexual transmissora, regra geral procuram adequada informação familiar, que geralmente cobre três
gerações. Outro requisito seguido pelos “bancos” os dadores são identificados pela altura, aparência e formação académica. Compreende-se que um dador com um doutorado, pode ganhar cerca de 750 euros por ejaculação. Embora nos EUA a lei não proíba o anonimato, isso não aconteceu no Reino Unido, que em 2004 a proibiu, o que obviamente, se refletiu na drástica quebra do número de dadores. O mesmo sucedeu tanto no Canadá como na Austrália, países que dependem da importação do esperma, principalmente dos EUA, estimada em mais de 90%. E, se o anonimato não existe,
abre-se a catadupa de problemas legais e medicinais. Em relação ao primeiro caso, poderá uma criança, resultante de um destes dadores de esperma, num país diferente da origem do “dador” invocar direitos paternais ou,
pior, direitos a sustento bem como de bens ou até invocar direitos de cidadania? E, que dizer, quando adultos, quiserem procurar saber as suas origens? Estes, alguns dos
importantes pontos a considerar num comércio que embora procure explorar a infertilidade, obviamente cria enormes problemas. Este, como aponta a revista TIME (16 de abril), que detalhadamente analisa tão importante assunto, não ser problema para um dos “dadores”, Ben Seisler, americano de 34 anos de idade que depois de garantir poder ser pai de, pelo menos 140 filhos, em 2005 procurou identificar alguns dos seus herdeiros. Deparando com Shari Ann, no Quebeque (Canadá), a cujos filhos gémeos (nomes permanecem no anonimato) foi apresentado como amigo da mãe desde então permanecem como amigos trocando correspondência regularmente. Porém, agora casado, cessou com tal prática, particularmente quando revelou o seu
passado de “dador”, naturalmente ficou estupefacta! Por tudo isto compreende-se – e exigem-se – leis controladoras, o que, possivelmente se concretizarão.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
A Magna Carta
A Magna Carta, cujo título original em Inglês é Grande Carta Inglesa, esse documento medieval tão citado mundialmente como origem da Democracia, particularmente britânica, divulgado em 1215, pelo Rei John, e, reeditada, com adições, em 1216, 1217 e, finalmente a vigorar a partir de 1225, portanto prestes a serem celebrados os seus octocentenários, é um documento de contrastes. Os direitos e privilégios nela exarados não resultaram da magnânima generosidade do rei João, mas foram-lhe forçados principalmente por uma revoltada nobreza e clero, procurando evitar uma guerra civil. Desse documento inédito, restam apenas quatro preciosos exemplares originais: dois, um em cada nas catedrais de Salisbury (sudoeste) e Lincoln (centro-leste da Inglaterra) e outros dois no Museu Britânico, em Londres.
Ideia do Arcebispo Stephen Langton, em 1213, a fim de aplacar os revoltados barões face às pretensões reais do excessivo aumento dos impostos feudais quando, composta por 63 cláusulas, foi apresentada ao monarca, este viu-se forçado a sancioná-la e proclamá-la a 19 de Junho de 1215, em Runnymede, belo prado verdejante nas vizinhanças de Windsor (a 30km oeste de Londres) onde se encontra um marco comemorativo. Começando por reafirmar os direitos da Igreja e cláusulas de proteção ao infringimento das regras feudais, como eventuais excessos solicitados pelo Rei, sem o consentimento do seu mordomo superior em assuntos fiscais, até intenções dolosas e extorsão por parte dos emissários reais e ainda a proibição da detenção, imprisionamento e punição dos homens livres (mas ignorando por completo os vilões e escravos que constituiam a maioria da população), salvo em condenação justa pelos seus pares ou pelas leis do Reino, bem como garantias e privilégios tanto a Londres como a outras cidades. Com o desaparecimento gradual do feudalismo, atingida a dinastia Tudor (Século XV), a Magna Carta caíu praticamente em desuso. Atingiu, porém, novo ritmo no século XVII, desta vez parlamentar, em que foi reinterpretada e dada uma nova e mais importante dimensão democrática. Tida como símbolo e grito de batalha contra a opressão, ao longo dos séculos foi frequentemente invocada sempre que as liberdades individuais se encontravam ameaçadas. Este, particularmente o caso da Inglaterra em que tanto a Petição de Direito, em 1620, bem como a Lei de Habeas Corpus, em 1679, deram lugar, baseadas na cláusula 39 da Carta, em que se afirma “nenhum homem livre será imprisionado ou desapossado (dos seus bens) excepto quando julgado pelos seus pares ou pela lei do Reino”. Porém, o maior impacto da Carta, foi na elaboração da Constituição dos Estados Unidos da América, em que predominam ideias e até frases diretamente da Magna Carta. A ideia da Magna Carta, aliás, não era nova. Anteriores monarcas, também normandos, como Henry I, Stephen e Henry II emitiram-nas, geralmente com promessas ou concessões aos seus barões. Mas não se tratava de concessões nem de promessas, mas apenas frases generalizadas. Porém, no século XII, com o aumento gradual das administrações, a influência dos barões enfraqueceu em relação à Coroa. A situação complicou-se devido à necessidade de aumentos de impostos, particularmente para a Terceira Cruzada e para o pagamento do resgate de Ricardo I, após a sua captura pelo Imperador da Santa Sé, Henrique VI. A posição do Rei João, mais enfraquecida ficou, devido à pretensão ao trono de um seu rival e o ataque ao Ducado da Normandia, que veio a perder em 1204. Sem um mal nem dois, veio o terceiro: a disputa com o Papa Inocêncio III, que chegou a excomungar o rei por este insistir em não nomear um arcebispo para Cantuária, afim de arrecadar os proventos para si próprio. Mais tarde, porém, foram feitas as pazes tornando-se suzerano do Pontífice com o arcebispo Stephen Langton, finalmente, à cabeça do arcebispado de Cantuária. Desiludido por nunca ter reganho o império de Angevin (de que faziam parte as atuais Normandia e Bretanha), morre de febre e desinteria, aos 49 anos de idade, no forte do bispo de Lincoln (centro-leste da Inglaterra atual). Porém os restos mortais deste único rei da dinastia normanda, nascido e morto na Inglaterra, encontram-se na catedral de Worcester (centro-oeste da Inglaterra).
quinta-feira, 14 de junho de 2012
RUPERT MURDOCH - HEARST RESSUSCITADO? (II-Conclusão) Fim de um império?
A
machadada a tão portentoso império, pelo menos no Reino Unido,
poderá ter sido dada, com a publicação do relatório da Comissão
Parlamentar de Cultura Desporto e Media, resultante de cinco anos de
investigações, no dia 1 de maio último, em que a mesma declarou
Murdoch “impróprio para gerir uma empresa”, independentemente do
império que construiu. O pior, porém, foi os seus executivos,
incluindo o filho e ex Diretor da News International, James Murdoch,
serem também acusados de mentir ao Parlamento, nos vários
inquéritos em que tomaram parte e, em que Rupert Murdoch, que a eles
resistiu, numa das sessões do ano passado, à qual não pôde
evitar sobre pena de prisão, perante a qual ter admitido ser “o
pior e mais humilde dia da minha vida”
Humildade,
porém, não é o que o novo e alto denunciador livro Dial
M for Murdoch (Ligue-se
M para Murdoch), - de autoria do deputado Tom Watson e do jornalista
Martin Hickman, da editora ALLEN LANE – 2012 - termo geralmente
conotado com crime, revela. Este revelador e altamente denunciador
documento, em que um dos autores, Tom Watson, foi vítima, bem
descreve a senda de abusos, implicando a detenção de 36 jornalistas
dois dos quais – o veterano Clive Goodman e Gleen Mulcaire, que já
cumpriram penas de prisão - mas especialmente de intromissão e
desregradas escutas ilegais de, pelo menos, 4.332 pessoas, muitas
delas célebres, como o ator Hugh Grant e os próprios príncipes
William e Harry a fim de ilegalmente obter notícias sensacionais
sobre as suas vidas privadas, publicadas no altamente profícuo e
multissecular NOTW. Não apenas isso, o pior foi o conluio com
algumas das mais elevadas e diversas esferas da Metropolitan Police,
vulgo Scotland Yard, a cujos agentes principais pagava elevadas
somas, permitindo o seu silêncio e inação, provocando, direta ou
indiretamente, a resignação de nada mais nada menos que três dos
mais altos dignitários da Scotland Yard! Não é de surpreender que
o principal jornalista denunciador do Caso Watergate, Carl Bernstein,
em artigo publicado na revista Newsweek,
afirmasse
que o caso das escutas ilegais só deveriam surpreender apenas
aqueles que ignoraram a “perniciosa
influência de Murdoch no jornalismo”.
E adianta: “muitos
de nós pestanejaram com certo gozo obsceno sem considerar a enorme
corrupção do jornalismo e política da Cultura de Murdoch em ambos
os lados do Atlântico...” O
corolário da saga agora chamada Murdoch, que está longe do seu
termo, tanto mais que também no mês passado foi formalmente acusada
uma das suas mais influentes jornalistas, e até que chegou a ser
Presidente da News International, Rebekah Brooks, bem como o marido e
assistente redatorial, por interferência no decurso da justiça . O
mesmo aconteceu com o seu ex colega, diretor do NOTW e Diretor de
Informação de David Cameron, Andrews Coulson., Independentemente de
outros três processos judiciais em curso, pelo menos três, contra
o Império Murdoch, culmina com outra vasta investigação, esta
liderada pelo Juiz de Suprema Instância, Juiz Lorde Brian Leveson.
Tudo isto, resultante das sucessivas tentativas de negação e
ocultação das infrações de escutas ilegais, embora reveladas em
2006. O mérito, coube ao matutino The
Guardian, que
divulgou
a
interferência e manipulação de alegadas mensagens, atribuídas à
raptada e morta, jovem Milly Dowler, em 2002. Estas, com o objetivo
de alimentar o sensacionalismo noticioso do NOTW, em que este
semanário inventou “conversas” e mensagens de telemóvel,
atribuídas à desditosa e bem morta filha, para convencer os pais da
jovem que ainda estava viva! Este, o potente tiro saído pela
culatra, que obviamente despertou e revoltou a opinião pública
britânica, que obrigaria Murdoch a encerrar definitivamente o
desacreditado multissecular e altamente lucrativo semanário News
of The World e
a oferta de cerca de três milhões de euros de compensação à
família da jovem Milly Dowler, assim como a organizações de
caridade, em que muitas, inicialmente, se recusaram a aceitar..
TRISTE E NOJENTO CAPÍTULO PARA A LONGA E LOUVÁVEL TRADIÇÃO DA
IMPRENSA BRITÂNICA!
quinta-feira, 31 de maio de 2012
RUPERT MURDOCH - Hearst Ressuscitado?
Poucos serão os que se lembrarão do magnata da imprensa americana, William Randolph Hearst (1863-1951). Porém, se se adiantar “Cidadão Kane”, essa maravilhosa película de atuação e realização de Orson Wells (1915-1985), em que o retratou, certamente que avivará muitas memórias. Personalidade definida de “proporções Shakespearianas, de obstinada determinação e de inesgotável energia”, a ele se deve a revolução dos media americanos tornando-se num dos mais potentes e igualmente perigosos magnates do sector. Empresário-mestre por excelência, bem como consumado exibicionista, os seus 28 importantes títulos, nos 19 principais centros populacionais americanos, dominavam, pelo menos um entre quatro dos leitores daquele país. Invulgar magnata, nacionalista e extremista, outro William Hearst poderá ter surgido na pessoa do australiano, naturalizado americano, [Keith] Rupert Murdoch. Filho do influente jornalista e correspondente de guerra, “sir” Keith Murdoch (1886-1952), depois de se formar em Oxford e adquirir experiência em jornalismo, junto de outro influente magnata britânico, Lorde Beaverbrook, foi diretor do seu influente Daily Express, Com a morte do pai, em 1954, regressou à Austrália, onde herdou dois dos seus importantes títulos, Sunday Mail e The News, ambos em Adelaide. Transformando o último, baseando-o em sexo e temas escandalosos, alguns da sua própria autoria, viu a circulação a escalar. O sucesso foi tal que institucionalizou outros títulos em cidades como Sidney, Perth, Brisbane e Melbourne.
Astuto, assim que Margaret Thatcher assumiu o poder, em 1979, imediatamente conquistou a sua simpatia e admiração, prestando-lhe enorme apoio, com a aquisição do antigo e moribundo The Sun, transformando-o, graças à sua indubitável magia, num poderoso título de larga circulação, revolucionando a então sonolenta e dominada indústria pelos títulos dos magnates Beaverbrook e Northcliffe. Com os conceituados e mui respeitados títulos The Times e The Sunday Times, propriedade do canadiano lorde Thompson para venda, o seu relacionamento com Thatcher contribuiu para a sua imediata aquisição, seguindo-se o igualmente influente e então prestigiado The News of the World (NOTW) , sem que houvesse qualquer inquérito anti-monopolista, geralmente requerido em casos desta natureza de detenção de vários e importantes títulos. Estava, assim, aberto o caminho para a formação da News International, que daria lugar ao império mundial hoje conhecido, News Corporation, que inclui, além da anterior, News Limited (Australia), News American Holdings Inc. que incorpora vários jornais, incluindo o prestigiado Wall Street Journal, um estúdio de cinema em Hollywood e o canal televisivo FOX, independentemente de influentes editoras, tanto nos EUA como na Grã-Bretanha, um império calculado em 70 mil milhões de euros. Influente junto das principais figuras políticas britânicas, a sua ação foi particularmente enorme com Tony Blair e, atualmente, o primeiro-ministro, David Cameron, cuja orientação política fortemente influenciou, nomeadamente em questões de política europeia. O “namoro” com Cameron, visava o apoio deste na aquisição total (ou seja os restantes 61% das ações das 39% que já possui) da potente e mui proveitosa BskyB – de que faz parte a não lucrativa Sky - que até Março passado faturou £1bl (1,2 mil milhões de euros de lucros). Compreende-se a sua influência, ao ponto de colocar um dos seus antigos diretores do (NOTW), Andy Coulson, como diretor de informação do primeiro-ministro, quando já era suspeito o seu envolvimento nas escutas ilegais no semanário que dirigiu durante quatro anos. A sua potente influência e magia, porém, chegou ao seu termo.
Continua: RUPERT MURDOCH - HEARST RESSUSCITADO? (II-Conclusão) Fim de um império?
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