quinta-feira, 6 de junho de 2013
O Grupo ou Fórum Bilderberg
Apelidado por muitos de altamente secreto e por outros considerado “governo da nova ordem mundial”, cujos membros efetivos, em sua maioria, são desconhecidos e daí o fundamento do fator secreto desta organização, embora o lugar nas suas conferências anuais seja mundialmente disputado, delas normalmente fazem parte os atuais e alguns antigos primeiros-ministros, como é o caso do muito nosso Dr. Francisco Pinto de Balsemão, chefes de estado, dirigentes como Henry Kissinger, altos chefes da finança, indústria, economia e das principais multinacionais, o Fórum Bilderberg cujo nome é oriundo do hotel holandês onde ocorreu a primeira reunião, em maio de 1954, teve o seu último encontro recentemente num luxuoso hotel-parque, em Watford, cidade vizinha a noroeste de Londres.
Oficialmente constituído e desenvolvido por importantes figuras tanto europeias como da América do Norte conscientes da necessidade de um “estreito diálogo e esforço conjunto no sentido de se debaterem problemas comuns e de crítica importância”, este controverso Grupo reúne-se anualmente, durante três dias, no país da Comissão Rotativa, ou seja, o Executivo, que elege o seu Presidente. São estas sessões de análise em sua maioria durante as refeições, vedadas aos órgãos ocidentais da comunicação social e subordinadas ao termo jornalístico de “off the record”, ou seja, para não serem direta e publicamente citadas, que abordam e procuram criar “uma maior compreensão dos problemas e tendências [afim de] permitir maior entendimento entre as nações ocidentais…” Terminada a Guerra Fria, reza o seu Cânone “existem mais, e não menos, problemas comuns. Desde o comércio a postos de trabalho, política monetária, de investimento, desafios ecológicos aliados a tarefa da promoção da segurança internacional...” Dos seus vários encontros, em que os participantes “falam livre e abertamente sobre as suas preocupações e experiências”, esclarecem as linhas oficiais, estão excluídas resoluções, votações e comunicados, predominando, assim, o anonimato e, para muitos, a tal razão do chamado governo mundial e secreto em que dificilmente muitos dos dirigentes, que nas sessões tomam parte, deixarão de seguir e até aplicar. Por isso, permanece a incógnita se muitas das concordâncias ou decisões ali tomadas serão ou não parte das políticas postas em prática pelos governos ocidentais.
Dos membros do Conselho Rotativo, eleitos durante quatro anos, como já se apontou, sai o Presidente, que juntamente ao Secretário Executivo, é responsável pelo bom funcionamento do Fórum, da realização das conferências, respetivas agendas e a seleção dos participantes em que geralmente não faltam personalidades como Bill Clinton, Tony Blair, Bushes (pai e filho), o atual primeiro-ministro britânico David Cameron, o ministro das finanças George Osborne, o já referido Kissinger e Bill Gates, as mais elevadas figuras da Comissão e Presidência da EU, dos bancos Europeu e Mundial, FMI, etc. Portanto, a elite política, da finança, da economia, e dos principais braços culturais do mundo ocidental. Segundo, igualmente, informação oficial, tanto o “pequeno” Secretariado (cujos membros são igualmente anónimos), como as conferências são custeadas por contribuições privadas, igualmente anónimas. Porém, as (avultadas) despesas dos encontros anuais recaem nos membros do Conselho Rotativo do país onde elas são efetuadas. Dentre os custos, encontra-se o “exército” da segurança privada, suplementada por destacamentos da polícia local. De salientar que durante a realização do encontro em Vouliagmeni (Grécia), em 2009, o jornalista-fotógrafo do jornal britànico The Guardian Charlie Skelton, foi duas vezes detido por apenas tirar fotos aos carros dos participantes. Segundo o jornalista Kenneth P. Vogel, é esta “lista de influentes figuras globais que captam o interesse da rede internacional de conspiradores”, que durante décadas consideram as sessões do grupo Bilderberg como “esquema corporativista-globalista”, cujas poderosas elites estão a mover o Planeta para uma oligárquica “nova ordem mundial”.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
POMPEIA E HERCULANO EM LONDRES
Estas duas cidades italianas, sepultadas no primeiro século AD, quais Fénix ressuscitadas, ou parcialmente ressuscitadas, das cinzas. estão de visita a Londres numa invulgar e única exposição, no vetusto Panteão da Arte e Cultura, chamado Museu Britânico. Patente até finais de setembro, nela se podem observar, e reviver, através de 250 vívidos, empolgantes e, muitos deles chocantes documentos, o que subitamente aconteceu a partir de um meio-dia, e em apenas 24 horas, nos longínquos idos anos 97 AD (ou, como os cientistas agora afirmam, em vez de AD, BP (Before Present – Antes do Presente). Porém, quanto a mim, numa opinião puramente pessoal, embora a imprensa britânica tenha colocado esta exposição nos pináculos da fama, não atinge os níveis de outras a que assisti no mesmo Museu, nomeadamente a inolvidável do Faraó Tutankamum, realizada em 1979, ou a mais recente, de há uma década, também sobre Herculano, neste caso, o Imperador. Embora seja evidente a colaboração do Moseo Nazionale Archiologico di Napoli, sem a qual esta mostra não seria possível, nos muitos dos raros achados encontrados até ao momento, (tanto mais que as escavações, devido à exigida morosidade, ainda estão, e estarão por muitos anos, em curso), desejar-se-ia mais.
Conquanto belos e descritivos frescos, estátuas de bronze quer do Imperador da época, Augustus (Lucius Maximus Maximus) e de sua bela e esbelta mulher, a Imperatriz Lívia, como outra de mármore da sacerdotisa Eumachia, mosaicos como o magnífico da Casa de Orfeu a retratar um pujante e insaciável canino, enriqueçam esta mostra, nela não faltam chocantes documentos, como a figura de dois cães petrificados ou, pior ainda, o drama, a dor de uma mãe, e marido, igualmente petrificados, a tentar agarrar e salvar os filhos quando, sucumbidos, tentavam abandonar o seu rico lar. Abundam, igualmente, utensílios de cozinha, assim como comida, ou alimentos, estes refletidos no pão da época, obviamente petrificado, ornamentos em ouro e até o abandonado boletim de nascimento de uma criança possivelmente no seu móvel de quarto. E, a refletir o intenso e súbito calor das engolfantes cinzas um chocante berço ou um banco de jardim carbonizados. O que os expositores conseguiram, tal como o tema da exposição reflete, foi retratar, quanto possível, a vida diária das duas cidades: as casas dos ricos e dos pobres, incluindo atos amorosos e até sexuais refletidos nos vários frisos presentes. Tudo isto, para mim, a lição mais chocante foi a surpresa do inesperado, prova da fragilidade humana e da sua insegurança e incerteza sobre o seu futuro. aliás muito bem traduzidos na interrogação do escritor da época. Stacius: “No futuro, assim que os campos verdejem e as devastadas plantas floresçam, será que alguém reconhecerá, que cidades, mansões e habitações foram sepultadas?”
Afinal, tudo aconteceu subitamente, em apenas 24 horas. Não obstante os prévios avisos do vizinho e até então dormente vulcão do Monte Vesúvio, trepidante e ameaçador, a vida continuou como habitualmente. Num meio-dia, como outro qualquer, do longuíssimo ano de 79 AD, subitamente, do estrondo, o Vesúvio começou a vomitar chamas, enormes nuvens de cinzas, juntamente a incandescentes rochas, escurecendo tudo ao redor. A população, agora consciente, tentou fugir. Primeiro Pompeia, que em poucas horas ficou cerca de 1/3 submersa em 5 metros de altura de cinzas, sepultando 1150 pessoas, seguindo-se-lhe a vizinha, bela e luxuosa estância balnear de Herculano, ambas na Baía de Nápoles, esta última, mais pequena, afetada em 2/3 e soterrada em 20 metros de profundidade, mas com apenas 350 vítimas. As escavações, iniciadas nesta última, ocorreram em 1740 e as de Pompeia em 1748.
domingo, 12 de maio de 2013
Galardão
Ser-se celebrado e reconhecido é uma preciosa dádiva. Porém, quando esse reconhecimento é
por parte de uma generosa e laboriosa, agora pujante Comunidade, composta por cerca, senão
mais de meio milhão de pessoas não é apenas um privilégio, mas uma dupla responsabilidade.
Foi o que me aconteceu na Gala do Jornal As Notícias realizado no sábado 11, no belo Hotel
Pestana Bridge, em Londres, em que me foi outorgado o tão cobiçado e artístico Galardão.
Este notável evento, iniciado há cinco anos pelo incansável fundador tanto da Gala como do
jornal, Dr. João Pestana, coadjuvado por outro incansável servidor da nossa Comunidade, como
é o caso de Gabriel Fernandes, Diretor do Canal das Comunidades, abrilhantado por artistas
notáveis, como Fernando Pereira e dirigido por admirados apresentadores da nossa televisão,
como Carlos Alberto Moniz e pela recém eleita Miss da Comunidade Portuguese no RU, Núria
Cardoso, assistido por três centenas da fina flor da Comunidade Portuguesa na Inglaterra,
incluindo altos representantes diplomáticos do nosso país, assim como deputados britânicos,
não só demonstra a dimensão da nossa representação comunitária como a sua força em terras
britânicas. Longe vão os tempos em que dificilmente se tentou formar associações em que outro incansável servidor diplomático, José da Silva Amador, também laureado, tanto se notabilizou e a quem o nosso país muito deve, mas não devidamente reconhecido. Perante esta demonstração de vontade e de unidade há que forjar a DEVIDA UNIÃO PARA DEMONSTRAR A
VERDADEIRA FORÇA DO QUE SOMOS E PODEMOS COMO DIGNOS EMBAIXADORES DO NOSSO
PAÍS NO REINO UNIDO (RU).
quinta-feira, 9 de maio de 2013
O MISTICISMO DOS VULCÕES
Para os Romanos, Vulcão, o deus do fogo, assistido pelo seu sacerdote Flamen, atraía os fieis no seu dia áureo do Festival Volcanalia, efetuado a 23 da agosto, em que o brindavam com pequenos peixes a fim de serem protegidos pelas devassadoras chamas. Para os Indonésios, em cujas 13,677 ilhas (6,000 das quais desabitadas), numa superfície de 1,904,570km2, situadas numa das mais violentas zonas tetónicas, semeadas por 129 poderosos vulcões, dos quais Krakatoa ou Krakatau em bahasa (língua oficial indonésia), a leste de Java, é o mais potente e destruidor, e cuja explosão de agosto de 1883 destruíu 2/3 da ilha, matando aproximadamente 40 mil pessoas, a magia dos vulcões domina-os. Só nesta ilha, a segunda maior do país, com 120 milhões de habitantes, predominam mais de 30 vulcões ativos, a quem se deve a morte de mais de 140 mil pessoas, nos últimos 500 anos! O país, cujo mote é Bhinneka tunggal ika - unidade na adversidade – traduzido por 300 etnias com mais de 700 idiomas e dialetos, dominado por seis grandes religiões oficialmente reconhecidas pelo governo, e da qual a mais preponderate é o islamismo, seguida do catolicismo, protestantismo, induísmo budismo e confucionismo, não obstante a sua religiosidade, é profundamente dominado pelo animismo. Só assim se explica, não obstante o seu devastador e mortífero historial, a magia dos vulcões, em que o do Monte Merapi, (que significa Montanha de Fogo), na zona centro-oriental de Java, a 30km norte da cidade de Yogiakarta, de meio milhão de habitantes, é o mais notável. Mas não único! O misticismo dos vulcões por parte da população indonésia, incluindo a própria classe política é tal que os dirigentes islâmicos, preocupados pelos seus efeitos, lutam estoicamente contra semelhante tendência! A estas devoradoras bocas em chamas afluem, anualmente, milhões de súbditos que as alimentam principalmente de cabritos, dinheiro e aves de toda a sorte. Ao vulcão do Monte Merapi, que igualmente conta com o chamado “Guardador” ou, digamos Sacerdote, de nome Mbah Marijan, realizam-se procissões por ele guiadas, cujos participantes, cheios de oferendas procuram aplacar. Ironicamente mais: a dádiva de uma vida melhor! O charme de Merapi, que na sua erupção de 1930 matou 1200 pessoas, é tal, que nas suas frondosas escarpas de 3000 metros de altura abundam, aninham-se aldeias cujos habitantes procuram a sua proteção! O maior cúmulo, a outro vulcão, este situado perto do Lago Toba, a norte da Ilha Sumatra, junto do qual está instalado um heliporto para os helicópteros dos ricos visitantes, um candidato à vice-presidência foi suplicar aos espíritos de tão poderoso vulcão que o ajudasse a ganhar as eleições. Porém, a potente boca de fogo não o ouviu, pois não as ganhou. Outras importantes figuras políticas recorrem ao beneplácito do guardador de Merapi, Mbah Marijan! Quem, porém, por alegado misticismo, uma vez que afirma que os vulcões “são cadeiras dos deuses” é o empresário Satria Naradha, tipo Berlusconi, pois possui a principal emissora de televisão e o principal diário de Bali, que se aproveita do desenvolvimento do turismo e afluência aos vulcões com a construção de uma vasta rede de templos hidus através da Indonésia!
Desde há muito que os vulcões, muito relacionados com as placas tetónicas, são parte importante da mitologia de muitos povos, habituados a viver junto das devoradoras crateras. A ciência que estuda estes fenómenos, a vulcanologia, porém, só em 1768 começou a estudar o que até então era vulgarmente classificado como “montanhas a arder”. Porém o registo gráfico da primeira erupção vulcânica está patente num mural neolítico, de 7000 AC, nas caves de Çatal Hoyuk, Anatólia, Turquia. Atualmente os geologistas concordam que o vulcanismo é um processo profundo resultante da evolução termal dos corpos planetários. O calor não escapa facilmente de vastos corpos como a Terra por processos condutores de radiação. Em seu lugar é transferido do interior da Terra, largamente por convecção, ou seja a fusão da crosta e da mantra terrestres numa força ascensional da magma projectando-a à superfìcie. Portanto, os vulcões são o sinal da superfície deste processo termal. Das suas raízes, nas profundezas da Terra, resulta o enorme e poderoso vómito na atmosfera.
Fontes: Agradecimentos a: Enciclopaedia Britannica, Wikipedia e National Geographic (edição britânica, janeiro de 2008)
terça-feira, 30 de abril de 2013
A “DAMA DE FERRO” QUE CONHECI E OBSERVEI
Não foi a tão solicitada e longamente esperada entrevista por ela concedida, permitindo-me estar junto dela, que mudou a minha opinião acerca da agora falecida baronesa e então primeira-ministra, Margaret Thatcher. Recebendo-me no seu bem arrumado escritório em Downing Street, nos idos meados de 1980, objetiva e incisiva, as suas primeiras palavras foram de simpatia pelo nosso país, o que, aliás, era hábito por parte de muitas outras figuras políticas que entrevistei e com quem contactei. Esclarecendo que dispunha de pouco tempo, pelo que pedia desculpa, num timbre de voz tão característico, mas sempre afável, de porte distinto e senhoril, na minha frente se “dama de ferro” existia, essa imaginária couraça teria sido guardada em qualquer outro sítio. Faz-me lembrar Isabel II, cuja imagem oficial, séria e sisuda, em privado é a pessoa mais jovial, descontraída e risonha. Agora partida, com toda a pompa, em que a Inglaterra tanto se preza e bem sabe, relembremos o seu legado.
Para muitas então mães e agora avós, Margaret Thatcher foi odiada quando ministra da educação no governo (1970-1974) de “Sir” Edward Heath em que decidiu retirar o alimento básico, o leite, a crianças de escolas primárias, pelo que veio a ser conhecida, em vez de Thatcher, “Snatcher” (ladra). Prelúdio do que viria a demonstrar quando primeira-ministra principalmente na destruição do até então precioso Sistema Social. Mas não só. Lembro-me, e vivi profundamente o drama da greve dos mineiros em que a então conhecida e mui detestada “Maggi”, como era conhecida, demonstrou ser uma verdadeira “dama de ferro”, destruindo a rica e vasta indústria carbonífera do país. Pior. Com ela muitas comunidades mineiras espalhadas pelo país, mas principalmente no País de Gales, no nordeste e centro da Inglaterra. Consciente do paroquialismo dos colegas britânicos e da enorme propaganda a favor do governo numa clara guerra que a primeira-ministra não queria – nem devia – perder, desloquei-me e convivi com a comunidade mineira do Pais de Gales e da zona de Darby (centro da Inglaterra) que antes me haviam tratado como especial anfitrião ao ponto de com eles conviver nas entranhas das minas onde labutavam, pelo menos a centena e meia de metros de profundidade. A dureza da polícia, não local, mas recrutada de várias partes do país foi notória, transformando por completo a boa imagem que se tinha dos até então afáveis “Bobbies”, como familiarmente eram chamados. A contrastar, na defesa do seu ganha-pão, mas mais. do próprio tecido social, tão caraterístico da comunidade mineira, os mineiros resistiam, dependendo das dádivas provenientes de todo o país cuja população com eles se solidarizava. Estes, dois dos mais notáveis episódios da sua governação. Outros houve, porém, não menos importantes, que sumarizo: 1) Aumento da pobreza e a crescente divisão entre o rico e o pobre. 2) Dividiu e revoltou o País; 3) Esbanjou a riqueza do petróleo e gás do Mar do Norte; 4) Provocou a maior recessão e o mais elevado nível de desemprego; 5) De-socializou o País e deu início à erosão do Estado Social; 6) Destruiu a multisecular independência das autarquias a favor da centralização. Quanto a mérito, destaco: A nível interno: 1) “Democratizou” e empolgou o mundo financeiro da “City”; 2) Reformou a dependência do país ´da anquilosante indústria pesada; 3) Pôs cobro à anarquia e ao baronismo sindicalistas. (Quem diz isto é um antigo e primeiro dirigente em década e meia e Presidente não britânico do influente Sindicato Nacional de Radiodifusão!) e, finalmente, na minha opinião, devolveu à Nação a perdida identidade BRITÂNICA, embora com algum e condenável xenofobismo, notabilizando-se particularmente na Guerra das Falklands/Malvnas. Mérito ou Demérito, com as privatizações, como a criticou uma das mais e influentes figuras do Partido Conservador e igualmente ex-Primeiro-ministro, Harold McMillan, por ter vendido “a prata da casa”. A nível internacional: 1) Prestigiou o País e, 2) juntamente com Ronald Reagan, apoiando Mikhail Gorbatchev, pôs cobro à Guerra Fria. Mas, a nível europeu, provocou divisões, chocou os “young turks” do seu partido, dando lugar à maior vaga eurocética britânica
domingo, 14 de abril de 2013
ESQUEÇA-SE A CRISE, Habemos Thatcher!
O Reino Unido, ou melhor, a Inglaterra vive dias memoráveis. Na desesperada ausência de boas novas em relação à economia, o Governo procura minimizá-la invocando o que une a Inglaterra e os ingleses: homenagear, com pompa e cerimónia, os seus líderes, especialmente na sua morte. Neste caso, o falecimento da Baronesa Thatcher, cujas exéquias são celebradas na quarta-feira 17, na Catedral de São Paulo, em Londres. Antecipadas por desfile, em que, pelo menos 700 militares das várias forças armadas vão fazer-lhe as devidas honras. Pedido da falecida como testemunho e gratidão pela sua enorme participação e sacrifício na Guerra das Falklands/Malvinas, dentre os milhares de convidados, em sua maioria chefes de estado e de gabinete atuais e antigos, contam-se a Rainha Isabel II e o marido, Príncipe Filipe numa rara presença e honra prestada a uma antiga chefe de gabinete apenas concedida no funeral de
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Margaret Thatcher, a pessoa que entrevistei.
Artigo longo, mas creio valer a pena, parte do meu manuscrito POR TERRAS DE SUA MAJESTADE:
Margaret Thatcher (1927-2013): a redentora?
Retomando o tema da crise de identidade que o país atravessava, principalmente a partir da década de 70, Margaret Thatcher, foi a pessoa mais indicada e que habilmente se aproveitou dessa circunstância. Começando por apelar ao inglesismo dos eleitores, o estilo de liderança da que foi apelidada, no estrangeiro, de "dama de ferro" (*) (*+) mas, para os ingleses, o epíteto menos
dignificante de "filha do merceeiro", devido ao facto do pai ter tido as origens de pequeno comerciante, na localidade de Grantham, no condado de Lincolnshire, no centro-leste da Inglaterra, o seu inegável patriotismo, ou para os seus muitos críticos de "inglesismo" xenófobo, teve grande apelo, ao ponto de ser considerada como a líder com o dom de unir um tão dividido e então desiludido país.
(*) O coronel Russo, Yury Gravilov, que na altura escrevia para o jornal do exército Red Star revelou, pela primeira vez, ao semanário britânico The Mail on Sunday (25 de fevereiro de 2007, pág. 48) que por iniciativa própria apelidou a então estadista britânica, em 24 de janeiro de 1976, com tão famoso epíteto, baseado no dirigente alemão e chanceler "de ferro" Otto von Bismarck.
(*+) Também ”transportada” para o cinema, interpretada pela artista Merryl Streep, que teve estreia mundial, em janeiro de 2012, cuja interpretação lhe valeu um Oscar, em 26/02/12 e uma estatueta BAFTA ,em 12 de fevereiro de 2012, pela Academia Britânica do Cinema e da Televisão, ambos os prémios como “melhor atriz”.
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Mulher dinâmica e autocrática, são inúmeros os ditos que se teciam em relação ao seu mais do que visível estilo dominante, tanto em termos maritais como, e muito particularmente, governamentais. No domínio marital, foi com base nas afirmações dela que os satiristas faziam,
normalmente, chacota. Caso mais típico, foi o programa da televisão, Spitting Image [correspondente e que deu origem à popular Contra-informação da RTP]. Enquanto o marido, Denis Thatcher, falecido em outubro de 2003, pessoa afluente e que fez a fortuna devido ao seu envolvimento com uma companhia americana de petróleo, lavava a louça acompanhado de uma
garrafa de gin, Margaret Thatcher, "comandava" a situação de mala na mão, principalmente nas reuniões de Conselho de Ministros! A confirmar o seu xenofobismo, como teve de recorrer a amas suecas, para cuidar dos filhos gémeos - Mark e Carol - muitas vezes comentava que tinha de ir depressa para casa porque receava que os filhos viessem a aprender inglês com sotaque sueco!
Como a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra britânica, e a primeira governante a manter-se no posto depois de três bem sucedidos embates eleitorais sucessivos, especialmente num partido de grandes tradições aristocráticas e historicamente dominado pelos homens, só uma mulher - a primeira mulher também a ocupar semelhante cargo na Europa. Elevada a baronesa, com o título de "Lady" Thatcher de Kesteven, atingiu o pináculo da política "Tory" [título atribuído aos Conservadores] (*). Pessoa habituada à controvérsia, na vida política, Margaret Thatcher começou a ser notada – e detestada - principalmente pelas mães das crianças, quando, como Ministra da Educação, entre 1970 e 1974, no governo do que viria a ser "Sir" Edward Heath (1916-2004), aboliu o leite gratuito que era distribuído às crianças, nas escolas primárias. Porém, a maior surpresa da sua carreira surgiria quando em 1975, depois da derrota governamental de Heath, desafiou o seu colega na liderança do partido, conquistando o posto, que passou a ocupar a 5 de fevereiro de 1975. Foi a partir desta altura e rodeando-se de grandes pensadores da direita, como o que veio a sucedê-la no posto ministerial que ocupara sob Heath, nomeadamente o falecido "Sir" Keith [Sinjohn] Joseph (1918-1994) e Airey Neave [que foi assassinado em 30 de março de 1979, pelo grupo terrorista norte-irlandês INLA, que colocou uma bomba no automóvel que se encontrava estacionado no parque da Câmara dos Comuns] e, com a assistência do então emergente Instituto Adam Smith, sob a direção do seu fundador, Dr. Marsden Pirie, preparou-se habilmente para o governo, cujo posto de primeiro-ministro ocupou em 1979. Campeã da simplificação e da redução do papel do governo, uma das principais ideologias da extrema direita Conservadora, mas centralista da gema, dedicou-se inteiramente ao monetarismo e à doutrina advogada pelo Professor americano e Prémio Nobel de Economia, Milton Friedman (1912-2006) (+), como espinha dorsal da política económica do seu mandato. A Margaret Thatcher, porém - e justiça lhe seja feita - devem-se, especialmente, três importantes e até então muito necessárias reformas, que nenhum governo trabalhista antes dela conseguiu, embora a custo de elevadas taxas de desemprego: transformação de uma predominante anquilosada e incompetitiva indústria pesada, especialmente no norte da Inglaterra, e na zona de Glásgua, na Escócia, para a indústria eletrónica e ligeira (1), bem como o sector de serviços; cobro ao predomínio e, em alguns casos nepotismo sindical; política de privatizações, em que foi copiada no mundo inteiro, e ao desenvolvimento do mundo bancário e financeiro, geralmente designado na Grã-Bretanha de puramente, "City", em que se seguiu o encorajamento e a promoção da aquisição das ações por parte do público, que enquanto em 1979 existiam apenas 3 milhões de acionistas, em 1987 triplicou para 9 milhões, o que justificou o título de "democracia do capitalismo", em que se notabilizaram tanto a British Telecom (telefones) como
(*) O termo "Tory", embora originalmente com conotações pejorativas, relacionadas com os ladrões de gado irlandeses foi atribuído aos políticos que se começaram a notabilizar no termo do reinado de Carlos II. Porém, a sua origem pode ser traçada, 25 anos antes, aos realistas que se opuseram a Carlos I. O partido, teve origem em 1681, dando lugar, depois da fusão com os "Whiggs" e Unionistas, ao atual Partido Conservador, em 1886. (Vide An Appettite for POWER A History of the Conservative Party Since 1830, págs. 16 e 22) (Edição de HarperCollins)
(+) O ministro das finanças do governo de Bill Clinton e professor de economia da Universidade de Harvard, Lawrence Summers,
afirmou na revista The Time (25 de dezembro 2006-1 de janeiro 2007) que "se Keynes foi o economista mais influente da primeira metade do século XX, Milton Friedman foi o mais notável da segunda".
(1) Em finais de de 2011 a indústria manufaturadora britânica estava reduzida a 2.5 milhões de trabalhadores
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a Companhia do Gás (British Gas), até então confinada a instituições financeiras. Mas a ela também se devem pelo menos dois dos piores males da sociedade britânica: o inaceitável alargamento do fosso entre o rico e o pobre e o até então inédito crescente egoísmo da geração do seu período de governo, incluindo a que lhe foi atribuída falta de respeito pela autoridade por parte da juventude no decurso dos seus 18 anos de mandato (*).
O aumento da pobreza - um dos maiores “legados” de Thatcher
No primeiro caso, como se cita na obra Inequality in the UK, (Oxford University Press, 1997) "...nos anos 60 aos meados de 70, a taxa da pobreza era relativamente estável. Porém, nos finais de 70 e de 80, a situação tornou-se claramente diferente, com a taxa da pobreza (HBAI) a subir vertiginosamente, na fase final do período..." e no estudo "Tackling Poverty and Extending Opportunity" do Ministério Britânico das Finanças (29 de março de 1999), em que se revela que 12 milhões de cidadãos britânicos, então cerca de um quarto da população nacional, vivia em estado de pobreza, apontam-se, igualmente, outros aspetos marcantes.
A divisão entre o rico e o pobre alargou-se "substancialmente" depois de 1977, situando-se numa diferença de 30%. Salienta ainda o estudo, que os autores afirmam ter sido o maior do género, que
as raízes da pobreza não foram súbitas na classe etária adulta, mas que predominavam desde a infância. Outro facto revelador é que, por haver, nessa altura, mais crianças entre famílias pobres, prejudicou tanto a educação como a oportunidade em singrar na vida. Foi esta situação, que levou o governo dito "Novo Labour", de Tony Blair, em setembro de 1999, a lançar um plano para, significativamente, reduzir a taxa de pobreza, pelo menos dentro de cinco anos. Mas no meio deste período e, não obstante o lançamento do salário mínimo de 3 libras e 60p por hora [posterior e regularmente atualizado], segundo a fundação Joseph Rowntree, a quem se deve o estudo Monitoring Poverty and Social Exclusion 1999 (Estudo da Pobreza e da Exclusão Social), dois anos e meio depois de um governo trabalhista, no fim de 1999, 14 milhões de pessoas viviam abaixo das
taxas médias de pobreza oficiais, incluindo 4.4 milhões de crianças. (+) Este facto, mereceu a admissão de Guy Palmer, diretor adjunto do New Policy Institute, entidade de estudos políticos muito perto da esfera do governo de Tony Blair [no Poder até outubro de 2007], citado pelo matutino The Daily Telegraph, de 8 de dezembro de 1999, "embora haja áreas em que se nota melhoria, não existe um padrão genérico. O que é visível, porém, são as desigualdades tanto no domínio da saúde como da educação, que estão a piorar." Segundo a já citada reputada e independente Fundação Joseph Rowntree, no seu estudo, intitulado Poverty and wealth across Britain 1968 to 2005 (Pobreza e Riqueza na Grã-Bretanha 1968 a 2005), publicado em julho de 2007, em resumo, afirma: a) desde 1970, a média por área da pobreza e riqueza na Grã-Bretanha alterou significantemente. Na realidade está-se a regressar aos níveis de desigualdade na riqueza e na pobreza verificados há mais de 40 anos; b) Nos últimos 15 anos aumentou o número de lares pobres, mas verificou-se menor número de muito pobre; c) As áreas ricas tornaram-se desproporcionalmente mais ricas, aumentando a polarização entre o rico e o pobre e em algumas cidades mais de metade dos lares situam-se no limite mínimo da pobreza; d) Enquanto aumentaram os grupos de pobreza urbana os lares mais abastados passaram a concentrar-se nas periferias das cidades, nomeadamente em Londres; e) Os lares ricos e pobres tornaram-se mais geograficamente segregados do resto da sociedade e f) A média dos lares, nem pobres nem ricos, tem diminuído em número e gradualmente desaparecido de Londres e da região sudeste.
(*) Esta acusação foi feita em abril de 2006 por Brian Garvey, presidente de um dos dois maiores sindicatos de professores, NASUWT, ao afirmar "que não preciso de me desculpar ao adicionar o meu nome à longa lista de pessoas que acham que Margaret Thatcher prejudicou mais a sociedade em que vivemos do que qualquer outra pessoa dos últimos tempos...uma vez que ela encorajou e destruiu, mais do que ninguém, as estruturas sociais, contribuindo ainda para a crescente falta de respeito por parte dos alunos nas classes das escolas do país”. (The Independent 13 de abril de 2006)
(+) Segundo o The Institute of Fiscal Studies, a percentagem projetada das crianças a viver em absoluta e relativa pobreza, em 2020-2021, e entre 23 e 24% respetivamente. Portanto muito aquem do objetivo do governo, estabelecido por lei, de 5 e 10% (The Independent , 8 de maio de 2012)
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Foi, igualmente, o xenofobia e anti-europeísmo de Thatcher que contribuiu para a radicalização dos "turcos" conservadores e o agudizar da xenofobia, assim como o degladiar no seio do partido que não só levaram à humilhante deposição da então primeira-ministra, em novembro de 1990, como contribuíram para o vexame eleitoral de 8 de maio de 1997, do seu sucessor, John Major, imposto por Tony Blair, pondo termo a 13 anos de afastamento do poder devido às várias vitórias eleitorais dos Conservadores. Com a vitória de Tony Blair e a emergência do chamado “Novo Labour”, até maio de 2010, com a derrota deste, e já com Gordon Brown como seu sucessor, mas também batido, surgiu, pela segunda vez em setenta anos, a coligação entre Conservadores e Liberais Democratas, liderada pelo Conservador David Cameron com Nick Clegg como seu vice.
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